Trânsito

By | February 17, 2009

Hoje de manhã aparece meu amigo Júlio no Talk e larga: “MEU! Que inferno o trânsito em São Paulo!”. Esse post então é em homenagem a ele e todos os outros paulistanos que todo dia enfrentam o trânsito de lá.

Eu moro na área rural de Halifax. Rural mesmo. Minha casa tem poço e fossa ao invés de água encanada e esgoto. E eu trabalho quase no centro.

No desenho fica fácil entender. Eu moro numa região pintada de amarelo e trabalho na região pintada de preto:

A esposa, por sua vez, trabalha na região pintada de branco. Devido aos nossos horários a gente sai de casa de manhã, passa quase na porta do serviço dela, vamos até o meu onde ela me deixa e depois ela volta todo o caminho até o serviço dela. Ou seja, para ela ir trabalhar de manhã atravessa a cidade uma vez e meia.

Tendo esses dados em mente e levando-se em consideração que o expediente dela começa às 08:00hrs, que horas precisamos sair de casa? Se você falou 07:10hrs, parabéns! Você acertou! 50 minutos para fazer tudo isso.

Mas agora deixa eu explicar algumas coisas (além do tamanho da cidade) que eu acredito contribuirem para a qualidade do trânsito:

Virar à esquerda

Preste atenção nos seus caminhos do dia-a-dia e veja o tanto de volta que você precisa dar porquê não pode virar à esquerda na maioria das ruas e avenidas de São Paulo. Eu mesmo lembro que quando trabalhava na Paulista eu vinha por um lado dela, mas tinha que atravessá-la, pois trabalhava do outro.

Eu precisava entrar à direita uns 3 quarteirões antes de onde ficava o meu serviço, ir por aquelas ruazinhas secundárias e depois atravessar a Paulista uns dois quarteirões depois do prédio onde queria ir. E ai voltava tudo por dentro de novo. Em dia de trânsito essa voltinha ridícula me tomava entre 15 e 20 minutos.

Aqui eu conto nos dedos o número de ruas onde não se pode virar à esquerda. E são todas ruas secundárias ou de acesso local. Não tem uma avenida sequer onde você não pode virar à esquerda num grande cruzamento.

Além do que o conceito de farol trifásico aqui é mais avançado. Num farol de cruzamento grande o verde tem duas posições: Verde piscante e verde fixo.

O verde piscante significa que está verde para você e vermelho para a pista oposta. Portanto, se você quer virar à esquerda pode fazer isso quando quiser.

O verde fixo significa que está verde para você E TAMBÉM para a pista oposta, portanto a preferência é de quem vai reto. Então se o farol está verde para você que quer virar à esquerda e também está verde para o carro que está na pista oposta e vai continuar reto, você deve esperar o sujeito passar e só depois ir.

Acredite em mim: funciona que é uma maravilha

Virar à direita

Como virar à esquerda é permitido em tudo quanto é lugar não é nada incomum você parar num farol vermelho e todos os carros da pista que cruzam virarem à esquerda ao invés de passarem reto. Dessa forma você tá lá parado no farol e não tem ninguém cruzando seu caminho.

Também pensaram nisso e é permito virar à direita com o farol vermelho. Nesse caso o farol vale como um sinal de PARE. Se não tiver ninguém vindo, vire e seja feliz.

Cada faixa para um canto

Sabe quando você está no trânsito e percebe que está numa faixa exclusiva para virar? Ou ainda, numa faixa só para ir em frente e você quer virar? Pois aqui dependendo do tamanho e movimento da via uns 500 metros antes das faixas terem sua funções definidas você já vai ver placas nos postes e penduradas sobre a rua indicando o que vai acontecer com elas. Você tem tempo mais do que o suficiente para planejar se muda de faixa ou continua onde está.

Mas atenção: Se você quiser mudar de faixa o momento é agora. Mesmo se estiver o maior trânsito e a faixa onde você quer ir estiver parada  não ande mais! Pare, sinalize e espere. Se você quiser mudar de faixa nesse momento alguém vai te dar passagem rapidamente. Porém se você der uma de esperto, uma de brasileiro, e decidir aproveitar a outra pista (que normalmente está 100% livre) e ir até lá na frente para depois dar seta e tentar entrar tu tá perdido. NINGUÉM vai te dar passagem, os motoristas de trás vão encrencar com você e se a polícia estiver por perto (e ela sempre está) você tá enrascado.

Pau velho? Aqui não!

Manja quando você tá preso naquele trânsito FDP na Avenida dos Bandeirantes, aquele calor desgraçado, os motoqueiros passando a milhão e pivete fazendo arrastão? E ai você olha lá na frente e tem uma viatura da CET parada na pista do meio tentando organizar o trânsito porquê um INFELIZ com uma M* de uma brasília 75 quebrou?

Isso não acontece aqui. Todos os carros – zero KM ou 20 anos de uso – passam por uma revião anual mandatória. Quando você passa pela revisão recebe um selo de aprovação que a polícia vira e mexe faz operação na cidade para verificar. Se os homem te param e você não está com a revisão em dia, você tá na roça. Mesmo se for um Mercedez zerado.

E posso garantir que funciona. Em quase 1 ano e meio morando vi um carro quebrado uma única vez. E era uma Silverado nova…

Velocidade máxima: 50KM/h

Quando cheguei aqui foi meu maior desafio. Como assim? 50 Km/h em São Paulo nego passa por cima de você.

Pois é uma questão de costume. Agora já acontece de eu olhar no velocímetro e perceber que estou a 40~45 KM/h e achar bom.

Além disso, mudanças constantes de velocidade e falta de sincronia entre os motoristas ajuda a piorar o trânsito, então tendo todo mundo dirigindo numa velocidade relativamente baixa resolve esse problema.

Juntando os 50KM/h com a distância do carro da frente recomendada pelo governo (3 segundos) você raramente precisa pisar no freio quando o motorista da frente faz uma curva ou muda de pista.

É o típico caso onde menos é mais.

PARE pra tudo quanto é lado

Além do sinal de STOP equivalente o PARE brasileiro, temos também o 3-way-stop e o 4-way-stop. Nestes dois tem placa de STOP para todas as ruas que chegam num cruzamento e quando tiverem vários carros no cruzamento passa quem chegou primeiro. Simples assim.

Dá até medo de pensar como ia ser no Brasil um negócio desses.

O 4-way-stop funciona tão bem que mesmo cruzamentos extremamente movimentados fluem tranquilamente. Além disso todo mundo conhece as regras de trânsito e sabe que no caso de um farol estar quebrado, automaticamente passa a valer a regra de 4-way-stop naquele cruzamento.

Eu já passei por um dos cruzamentos mais movimentados da cidade num dia onde o farol estava quebrado. Normalmente eu demoraria uns 2 minutos para cruzar com o farol. Naquele dia levei uns 4 minutos. Nada mal para o ponto mais crítico da cidade, sem nem um guardinha para orientar.

E isso me faz lembrar do último ponto desse post

Obediência à lei

Todo mundo conhece a lei. Todo mundo conhece as regras. Mas mais importante do que isso: Todo mundo as respeita e quem não respeita é severamente punido.

Aqui não tem equivalente à CET. Quem cuida do trânsito é a polícia mesmo. E nada de anotar num bloquinho e mandar o auto de infração pelo correio não. Se a polícia te ver fazendo coisa errada eles vão te perseguir, fazer você parar o carro no acostamento, puxar o registro do carro, pedir documentos do carro, seguro (sim… seguro aqui é obrigatório) e sua carteira de motorista. Ai vai puxar sua ficha e te perguntar se você sabe porquê foi parado.

Você vai levar um sermão, uma bela multa, perder pontos na carteira e, dependendo da infração (como excesso de velocidade em zona escolar), pode ter a carteira apreendida ali mesmo e já ir pra casa de taxi.

São por esses motivos e muitos outros que o trânsito em Halifax funciona.

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6 thoughts on “Trânsito

  1. Vera Maria

    Filho isso é uma aula de cidadania.
    Todas as pessoas conhecem as leis de transito, a as respeitão.
    Por outro lado a lei é cumprida.
    Isso é um pais de primeiro mundo.

    bj

    Mãe

  2. Alexandra

    Excelente o post!

    Pois é… é bem por aí mesmo. Mesmo aqui em Toronto, onde o trânsito é bem mais complicado e vc pode levar mais de duas horas pra sair da cidade, as regras funcionam bem. Eu fiquei boba durante o blackout que teve aqui há uns anos. E fui na Yonge & College que é um cruzamento super movimentado, e vc nem dizia que os faróis não estavam funcionando… não só o trânsito fluia bem de todos os lados, com cada direção se revezando pra cruzar, como também davam a brecha para os pedestres atravessar a rua.

    O único problema aqui é os motoristas de Toronto adoram mudar de faixa… as vezes não tem um carro a frente mas o motorista fica patinando na pista mudando de faixa. O Alan, acostumado com Montreal, onde as pessoas dirigem rápido mas são mais disciplinadas em termos de só mudar de faixa quando realmente precisam, desistiu de dirigir aqui. Ele já teve moto e se tem uma coisa que ele detesta é motorista que dirige de forma imprevisível…

    No Brasil ele fica sempre meio surpreso com o caos e o fato de o trânsito “não fazer sentido” na cabeça dele. Toda vez que passamos por um sinal de pare ele vira pra quem esta dirigindo “ei, tinha uma sinal de pare ali!”. A reação? As pessoas riem, acham engraçado. Principalmente quando eu digo que aqui, eles param até mesmo quando não tem um gato pingado na rua. Não entendem que as regras de trânsito não são sugestões que vc segue quando é conveniente…

    Eu ainda estou tentando entender o que faz uma sociedade respeitar as regras e outras se vangloriar de não o fazer… educação? de que tipo? tolerância zero?

    Não sei… mas que é muito mais conveniente e eficiente quando as pessoas respeitam as leis, ah, isso é!

  3. E. Coelho

    O comportamento das pessoas no trânsito é uma fotografia do caráter delas e fotografia da
    sociedade local.

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