Visitando o Brasil

A última vez que estive no Brasil foi em 2011 e, sinceramente, não estava com a menor vontade de visitar novamente. Mas por razões que não vale a pena discutir aqui resolvi que era o momento certo de ir.

Quem vive no Brasil, mesmo que vez por outra faça uma viagem internacional, está anestesiado em relação a horrível realidade que é viver aí, mas na minha última visita eu tinha ficado chocado e era essa a lembrança que tinha ficado.

Por incrível que pareça dessa vez não foi tão ruim. Na verdade, com exceção do calor horrível, foi bem aceitável.

Logo de cara chegamos no aeroporto de Guarulhos no terminal novo. Eu nem sabia que tinha terminal novo. Bacana, moderno e com leitor automático de passaporte. Nem fila pegamos. Passamos direto pela receita federal também. Uau. Que diferença da última vez, que já chegamos passando nervoso. (obs: num post futuro vou dar dicas de viagem e mostrar como a esposa e eu não despachamos mais bagagem)

Outro fator foi que em 2011 fomos no meio do ano, em dias normais. Quem aguenta São Paulo num dia normal? Dessa vez, entre Natal e Ano Novo, a cidade estava bem vazia. O trânsito estava aceitável até. Ainda acima do que estamos acostumados mesmo em dias ruins aqui no Colorado, mas aceitável.
Independente disso eu já tinha avisado que – de forma nenhuma – eu iria dirigir em São Paulo. Metrô e carona foram nossas formas de transporte durante as férias.

E o metrô tá bem bacaninha, viu? Ar-condicionado e tudo. E pegamos a “nova” linha amarela. Nada mal. Imagino que durante dias normais no ano letivo deve ser um pesadelo, mas nesses dias de férias e fora de horário de pico, foi bem agradável. Certo que algumas vezes tinha gente pedindo esmola dentro dos vagões, mas isso não é novidade.

Mas chega de falar bem, senão vão achar que gostei. 😛

No dia que chegamos em Sampa saí com meu pai e minha irmã. Estacionamos o carro num lado da rua e atravessamos para o outro. Eu e minha irmã fazemos questão de atravessar na faixa de pedestre. Na volta assim que pisamos na faixa de pedestre eu vejo, do outro lado, três policiais da ROCAM cercando um sujeito numa moto e descendo com armas em mãos apontando pro fulano e gritando. Nesses nossos 9 anos fora do Brasil nunca vi um policial tirar a arma do coldre. Então já começamos bem…

No segundo dia estávamos voltando pra casa do mercado (eu acho) com o meu pai dirigindo e quando paramos em um semáforo meu pai fala: Vixi! Roubaram a moto do moço.
Eu perdi a ação, mas aparentemente o cara parou no semáforo com  moto dele e uma outra moto com dois sujeitos parou do lado. Um sacou a arma, fez o cara descer e já levou embora. E viva o Brasil. Mais uma vez, no Canadá nem furto de veículos ouvia falar muito. Era notícia no rádio quando acontecia um. Aqui no Colorado furto parece ser um pouco mais comum, mas roubo? Nope.

No quarto dia estávamos dentro do Conjunto Nacional na Av. Paulista quando percebo uma comoção. Eram uns 4 ou 5 seguranças cercando um fulano. Êlaiá!

A quantidade de desabrigados, mendigos, pedintes e maloqueiros em geral também é de assustar. A maior parte das vezes que andamos a pé foi na Av. Paulista, que estava bem policiada (por causa da “virada na Paulista”?), então o medo não foi tanto. Mas o sentimento de insegurança e medo era constante.

Mas uma coisa que observei é que toda loja, barzinho ou escritório, não importa quão pequeno, tinha pelo um segurança particular. É sério amigos? É aceitável pra vocês viver numa situação dessas?

Vamos falar um pouco de educação e cultura então. Combinamos de encontrar uns amigos num barzinho na Paulista. Éramos apenas seis pessoas numa mesa pequena, mas era simplesmente impossível conversar! Em todas as mesas ao nosso redor todo mundo falando muito alto, vira-e-mexe todos falando juntos, rindo alto, querendo chamar a atenção um mais do que o outro. Sério que se em algum restaurante no Canadá alguém tivesse fazendo uma zona igual o povo no Brasil a polícia teria sido chamada. Que cultura horrível.

Aliás, falar alto, pra todo mundo ouvir, parece ser obrigatório. As pessoas discutindo entre si ou no telefone, em voz alta, todo tipo de assunto particular. Eu diria que intencionalmente querendo que outras pessoas ouvissem. Sei lá… Se sentem mais importantes se uma pessoa aleatória no metrô ficar sabendo dos seus planos de férias na praia? “Nossa, esse deve estar bem de vida né?”. Só pode ser. Eu não entendo discutir assuntos particulares em público, principalmente em qualquer volume que seja mais alto do que um sussurro.

Um dia estava trancado no quarto tentando aliviar o calor no ar-condicionado e liguei a TV. Arrependimento imediato. TV aberta no meio da semana? Sério que me deu nojo. Primeiro peguei um desses programas que exploram desgraças e desavenças em famílias. Foram 2 minutos e mudei de canal. Ai estava passando uma reportagem sobre um modelo novo da Porsche. Não sou muito chegado em carro, mas vamos assistir né? Quando acaba a reportagem uns 3 minutos depois volta pro apresentador… Era um programa “evangélico” sobre prosperidade falando como você, doando dinheiro pra aquela igreja, também pode ter um Porsche daqueles. Assisti mais uns 10 minutos só de curiosidade mórbida. Sendo eu um evangélico me dá tristeza de ver o que eu vi. Por favor, não vejam esses programas e assumam que isso é Cristianismo. Não é!

Num outro dia estava esperando meus pais na sala e minha mãe deixou a TV ligada em alguma dessas novelas da Globo. Minha nossa! Como alguém consegue assistir isso? Vi apenas um bloco e não consegui decidir se o pior eram os artistas ou a história. Parecia uma pecinha teatral da quinta série. Sei lá… Netflix Originals me deixaram mal-acostumado?

E agora, meu assunto favorito: Os preços. Vocês estão tudo fora da realidade. Um dia meu pai um churrasquinho em casa. O preço que ele pagou na picanha eu provavelmente compro meio boi por aqui. Sem exagero a carne mais cara possível de comprar na Costco custa $54/kg. Não que eu já tenha comprado, mas sempre olho pra ela e imagino qual deve ser o sabor… E se realmente vale $54 mangos. Minha discussão sobre preço e valor vai ficar pra outro post, mas minha conclusão é que Brasileiro não é só rico ou só trouxa. É rico e trouxa.

Eu estava com vontade de comer uma comida mineira e fomos num restaurante a quilo no Shopping. O almoço tinha sido bom então a esposa pegou pouca comida e eu também peguei menos do que seria o meu normal. A conta? $71! Mano! 71 mangos no quilo? Que isso? Sei lá… eu tô de férias, tinha uns Reais guardados que precisava gastar e também o que paguei no cartão de crédito foi convertido no câmbio e não saiu absurdamente caro pra mim, mas mesmo assim fiquei revoltado com os preços. De forma nenhuma consigo me imaginar gastando uma fortuna dessas no meu dia-a-dia. Pagamos 12 mangos num lanche americano na padoca. Insano.

Particularmente acho que o Brasil não tem jeito e que a única saída é pelo aeroporto. Já fiz minha parte quase 10 anos atrás. Mas conversando com um amigo – que também já está com o dedo no gatilho pra sair esse ano – ele me pareceu mais otimista. Ele acredita que o Brasil ainda tem jeito e que pode melhorar. Ele só acha que ninguém da nossa geração vai estar vivo pra ver isso acontecer.

Postmortem

Fato: Em algum ponto alguma coisa vai dar errado. Eu já falei aqui no blog que tudo é horrível. E se você está em TI – ou qualquer outra área técnica na verdade – já deve ter visto ou participado de algum problema que causou dor-de-cabeça, prejuízo, perda de clientes, indisponibilidade de sistemas ou serviços ou talvez até a demissão de alguém.

Erros e falhas são fatos da vida e vão acontecer com as melhores pessoas e com as melhores empresas. A diferença vai residir num elemento essencial: O que é aprendido com esse incidente.

Aqui entra o postmortem – ou Incident Report – que é a forma como uma empresa ou organização aprende com seus erros.

Por incrível que pareça, escrever postmortems não é parte da cultura de muitas empresas. E várias empresas que tem postmortem não sabem fazer direito. Ao invés de uma análise fria e realista o relatório vira um jogo de caça às bruxas, pessoas tentando tirar o delas da reta e, finalmente, acharem um bode-expiatório.

É a famosa espada de dois gumes. Se utilizado corretamente o postmortem é uma ferramenta poderosa para aumentar a resiliência de uma organização, mas se usada para “caçar os culpados” só vai piorar as coisas.

Lá na firma™ escrever postmortems é parte da cultura. E chamamos oficialmente de “blameless postmortem” (Postmortem sem culpados).

Modelos e templates variam e você deve criar ou adaptar algum que sirva para as suas necessidades. Eu ajudei a implementar postmortem em uma das empresas por onde passei e particularmente gosto desse modelo. Recomendo abrir e ler o link antes de continuar.

A primeira parte do relatório é um resumo executivo. Como você explicaria o que aconteceu em palavras simples, evitando jargões técnicos e em um ou dois parágrafos. Não só isso ajuda a responder perguntas de uma audiência maior, mas também permite que você – ao reescrever de forma simplificada – absorva melhor o que aconteceu.

Logo a seguir eu gosto de abordar o impacto nos clientes ou na renda, pra já deixar claro qual foi o tamanho do prejuízo. Não é sempre que o time de TI vai ter acesso a informações financeiras, mas faça o melhor que puder para que um diretor ou VP que olhe o relatório entenda o prejuízo em forma de dinheiro perdido (ou não ganho). Isso vai ajudar lá embaixo, na última sessão.

Aí então é hora de falar, passo-a-passo, o que aconteceu. Eu gosto de utilizar ISO 8601 pra ficar bem claro o horário. Felizmente é o parecido com o padrão no Brasil, então não é um problema por aí.  Mas pode ser um problema se você trabalha com um time de americanos e não utilizar a notação correta. 😛

Evite colocar informações inúteis ou irrelevantes para o problema em mãos, mas também não tenha muito pudor no que colocar. Inclua passos que tomou para diagnosticar o problema, mesmo que não tenham sido bem sucedidos.

Nessa seção é especialmente importante que a narrativa faça menção a departamentos e posições – e não a indivíduos. Isso faz uma grande diferença na parte do “sem culpados”.

A narrativa dessa seção só termina quando o serviço ou operações são restauradas ao estado original.

Logo depois vem a parte onde você deve analisar a raiz do problema. É a segunda parte mais importante do relatório. Vale a pena dizer que muita gente não entende e não sabe distingüir a raiz de um problema e um gatilho.

No documento exemplo que criei o router caiu por causa de um PDU (power distribution unit) com problema. Algumas pessoas podem assumir que a raiz do problema é simplesmente isso: Um PDU com problema. Mas não! PDU com problema foi um gatilho que fez com que o router caísse. Mas a raiz do problema é que o router só tem um PSU (power supply unit) e – portanto – estava conectado a apenas um PDU.

Coisas quebram o tempo todo. PDUs podem quebrar. O seu router, estando conectado a apenas um PDU, tinha um ponto único de falha. E isso é a raiz do seu problema. Tivesse conectado a dois PDUs e esse incidente nunca teria acontecido. E esse é o objetivo de analisar a raiz do problema: Já que é quase garantido que em algum momento um PDU pode falhar de novo, o que é possível fazer para que tudo continue no ar quando isso acontecer? Bom… no mínimo você precisa estar conectado em dois PDUs diferentes.

Da mesma forma é essencial no relatório constar claramente quando a solução para restaurar o serviço foi apenas uma mitigação temporária do problema. No exemplo a mitigação foi: Conectar router num PDU sadio. E isso foi o suficiente para restaurar o ambiente de volta ao estado original. Mas não para ser uma solução definitiva que vai fazer o serviço mais resiliente.

Finalmente vem a parte mais importante do relatório: Plano de ação para corrigir a raiz do problema.

Eu gosto de utilizar o formato tabela com colunas que indicam o que precisa ser feito, o tipo desejado de impacto (corrigir o problema, melhorar a resiliência, monitorar o ambiente, comunicar-se com clientes, etc), número ou protocolo para acompanhamento (do seu sistema de ticket, bug ou gerenciamento de projetos) uma data final para ter a resposta e/ou implementar a solução e o status atual.

Nessa seção é importante constar duas coisas: O mínimo que você precisa para evitar que esse mesmo problema aconteça de novo e outra possíveis soluções para potenciais problemas parecidos que foram descobertos por causa desse incidente.

No nosso exemplo é claro que o mínimo necessário é que nosso router seja capaz de conectar-se a dois PDUs diferentes. Então “dual PSU” é a ação corretiva que vai evitar que esse mesmo problema aconteça de novo.

Mas depois de pensar um pouco no incidente em mãos, você percebe que outro problema que pode acontecer é o próprio router pifar, ao invés do PDU. Então a solução ideal seria ter dois routers, cada um podendo se conectar a dois PDUs. Agora sim, além de resolver o problema em mãos você está adicionando resiliência ao seu serviço.
A questão aqui começa a ser custo. Por isso lá em cima é ideal ter uma idéia do prejuízo causado pela falha. Se você conseguir mostrar claramente para a diretoria que com $X eles podem evitar outro incidente que vai trazer 3$X de prejuízo é bem provável que consiga verba para melhorar o seu sistema.
Colocar possíveis melhorias no relatório é importante mesmo que você saiba que a diretoria nunca vai aprovar o orçamento. No caso do cenário hipotético se tornar real e um incidente que tinha sido anteriormente predito realmente acontecer, não só isso vai demonstrar claramente sua competência e preparo técnico, mas vai fazer a diretoria reavaliar a posição anterior. E, lógico, protege o seu traseiro.

E – finalmente – tente pensar num cenário utópico e ideal. O que seria preciso para tornar seu sistema quase indestrutível por causa de intercorrências parecidas com essa? Mesmo que seja apenas como um exercício mental, coloque no papel e discuta com outras pessoas da empresa.

 

Resiliência mental

É difícil explicar, mas já comentei antes em algum post aqui no blog que eu nunca fiz nada relacionado a esportes antes de sair do Brasil. Nunca fui rato de academia nem nada parecido. Na verdade tudo que sei e faço relacionado a esportes vem dos últimos 4 anos, então nomes e expressões e conceitos são todos em inglês na minha cabeça. Pra piorar os pesos dos meus lifts são tudo em libras, o que é confuso até pra mim, já que uso o sistema métrico em tudo na vida, exceto pra saber quanto tenho na barra.. ??

De qualquer forma, uma expressão comum – especialmente no CrossFit – é “Pain Cave” (também chamado de “Dark Place” – local sombrio – às vezes).

Não sei se tem uma tradução em português, mas Pain Cave é aquele momento no seu workout que você chega no seu limite mental, mas provavelmente não no seu limite físico. Nosso senso de autopreservação entra em alerta vermelho e grita loucamente com nosso consciente: VOCÊ TÁ LOCO? VAMOS MORRER DESSE JEITO!

Mas a verdade é que esse alerta acontece muito cedo e é possível ainda ir muito longe mesmo depois que ele soa. A parte difícil é ignorar esse estado mental e continuar indo em frente. É preciso ter resiliência mental.

Pessoalmente não tenho problema com isso com uma atividade de intensidade leve ou moderada, mesmo que seja um evento de longa duração, como uma maratona. Em compensação se for alguma coisa de alta intensidade, eu vou pedir arrego muito, muito fácil. E eu odeio fazer isso.

Eu sei que é uma barreira mental quando lá pelo meio do workout eu começo a remoer na minha cabeça o quanto eu odeio me exercitar, que eu fui obeso a vida inteira e devia me conformar com isso. Que é ridículo o tanto de sofrimento que estou passando no momento, que a dor que estou sentindo tá no ponto de chorar e – finalmente – que eu nunca mais volto pra academia na minha vida. Ai dou uma olhada rápida no relógio e só está marcando 2 minutos. A vontade é de morrer ali mesmo. Pelo menos acaba o sofrimento. Local sombrio sem dúvida.

O que acontece comigo quando chego nesses estágios é que minha performance cai dramaticamente. Aquele instinto de autopreservação consegue entrar em ação e quando eu vejo já estou tirando um descanso, dando uma bebericada na garrafa d’agua ou me apoiando na parede pra respirar. E alguém já está gritando comigo “KEEP MOVING!!!”

Mas isso não se aplica apenas a esportes. Resiliência mental é importante em todas as áreas da vida. Caso você não tenha reparado ainda a vida não é fácil não e apesar de ser possível ignorar as dificuldades, ou adiá las um pouco, mais cedo ou mais tarde o bicho pega.

O que eu mais sofri a vida inteira – e muita gente que conheço ainda sofre – é auto-controle quando o assunto é comida. Dietas uma atrás da outra, com variados níveis de sucesso, mas quase 100% das vezes voltando ao peso anterior, ou até mais.

Açúcar e doces são viciantes. E não estou falando figurativamente. São realmente mais viciantes do que heroína e cocaína. É potencialmente mais difícil deixar de ser gordo do que drogado. Na próxima vez que criticar um viciado tenha certeza que não precisou daquela bolachinha no lanche da manhã.

A má notícia aqui é que resiliência mental – talvez quase a mesma coisa que força de vontade – é um recurso finito. Você só tem uma determinada quantidade pra utilizar e depois disso provavelmente vai quebrar a sua resolução.

Por outro lado a boa notícia é que é possível treinar e aumentar sua resiliência, além de usar algumas técnicas para preservar sua força de vontade ao máximo. Vamos começar pelo mais fácil, que é preservar a força de vontade que já temos.

Sabe qual o jeito mais fácil de comer um doce? Ter um doce pra comer. Se quando você está de regime e abrir a geladeira você achar pudim vai ter um limite de vezes que você vai conseguir fechar a porta ignorando o pudim. Você vai comer o pudim mais cedo o mais tarde. Isso é um problema principalmente para quem é a única pessoa na casa fazendo regime e precisa ser endereçado corretamente.

A sua vó, mãe ou esposa pode ter a melhor da intenções, mas chame pra uma conversa e bote as cartas na mesa: Excesso de peso tem consenqüencias sérias a curto e longo prazo, indo de diabetes e problemas cardíacos até câncer. Doce e açúcar são efetivamente viciantes e assim como você não fica tentando um alcóolatra deixando uma caipirinha na geladeira você não deve tentar um gordinho com um pudim.

Isso vale pra outras áreas da vida também. Seja qual for o aspecto que você queira melhorar, mas o desafio é constante e vira e mexer você falha, o ideal é diminuir a quantidade de vezes que você se expõe.

Pra mim comida é um problema até hoje. Um exemplo do que faço é que toda quinta-feira tem happy hour no salão social lá no escritório. Comida e bebida à vontade. Minha solução é fácil: Simplesmente fico na minha mesa. Zero tentação. Zero chances de falhar.

O que é mais fácil: Deixar passar bolo, brigadeiro e empadinha numa festa de aniversário ou simplesmente não ir a uma festa de aniversário? Pra mim a resposta é bem clara. E eu não fico considerando o que os outros vão pensar de mim. No final das contas quem paga minhas contas sou eu.

Treinar a resiliência, por outro lado, é horrível. Mas estranhamente satisfatório ao mesmo tempo.

Coisas que já fiz ou ainda faço:

60 dias de flexão de braço

Todo dia ao acordar faça uma flexão de braço imediatamente. Ali no pé da cama mesmo. No dia seguinte faça duas. No terceiro dia três e assim por diante. Por 60 dias sem parar. É uma coisa horrível. Ao acordar os músculos estão rígidos e frios. Nossos hormônios ainda estão regulados pro descanso, não existe a menor vontade de sequer abrir os olhos e você tem 20, 30… 60 flexões pra fazer. Pain cave 10 segundos depois de acordar. Se é uma Segunda-feira então as chances de preferir não ter nem acordado crescem exponencialmente. Seu auto-conhecimento vai aumentar bastante durante esses 60 dias. Ninguém vai estar lá te obrigando. Você não precisa prestar contas pra ninguém se fez ou não suas flexões. Você não vai virar o Rambo ao final dos 60 dias. Sua esposa/marido talvez até te critique e vire os olhos pra você durante esses 60 dias. Não existe propósito, exceto aumentar sua força de vontade e auto-conhecimento.

Jejum

Talvez seja uma surpresa pra você, mas a gente não precisa comer três ou mais vezes ao dia. Aliás, podemos ficar um bom tempo sem comer. Um sujeito bem obeso fez jejum por 382 dias. A maior barreira com jejum costuma ser mental. Nosso sistema de alarme começa a berrar depois de 12 horas – ou até menos – pra quem é viciado em comida. Algumas pessoas tem até efeitos psicossomáticos e acham que vão morrer depois de poucas horas sem comer. Comece com períodos mais curtos de 12 horas de jejum e depois vá aumentando. 18 é um bom período de jejum pra ser feito umas duas ou três vezes por semana. Um jejum de 24 horas ou mais uma vez por mês. Ainda não fiz isso, mas quero fazer 5 dias de jejum. Até hoje só cheguei a 36 horas.

Banho frio

Esse deve ser o que mais odeio. Comentei sobre isso num dos posts sobre triatlo. Existem diversos benefícios em tomar banho frio, como ajudar em perda de peso e estimular o sistema imunológico, mas pra mim é simplesmente horrível e um dos exercícios de força-de-vontade mais difíceis. Pensando agora acho que a última vez que fiz isso foi em 2014. Boa sorte pra quem quiser tentar.

Exercícios de alta intensidade

É nesse que estou trabalhando no momento, como podem ver pelo início do post. Ainda me considero um fraco nesse ponto.

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O senhor é um fraco 02

Vou usar como exemplo o workout “Fran”: 21-15-9 Thrusters @95lbs / Pull-ups. Esse sujeito fez Fran num impressionante tempo de 1m:59s. Meu tempo atual de Fran é 8m:10s. E com peso mais baixo (65lbs). Eu conscientemente sei que consigo fazer isso mais rápido com o mesmo peso ou talvez num tempo parecido com mais peso. Mas eu tenho um imenso bloqueio mental com thrusters. Faz muito tempo que estou tentando superar, mas é muito difícil pra mim.

Mas nem tudo está perdido. Recentemente fiz algum progresso e consegui mergulhar mais fundo na pain cave do que jamais tinha conseguido. Primeiro foi num workout que era simplesmente 1000m de remo. Consegui em 3m:31s me sentindo mais à beira da morte do que em qualquer outro workout antes. E o fato de ter saído de lá andando e ido trabalhar logo a seguir mostra como realmente era apenas um bloqueio mental.

O outro momento a ser lembrado foi essa quinta passada. O outro tipo de exercício que odeio – e que é muito parecido com thruster – é wall-ball:

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Toda vez que tenho um workout com wall-balls eu já preparo um plano pra quebrar em grupos de 4 a 6 wall-balls entre intervalos de descanso. E alguém sempre grita comigo por causa disso.

Essa quinta o workout era: 50-40-30-20-10 Sit-ups / Wall-balls. E o coach já avisou: Quero ver pouco descanso. De novo, ignorei meus pensamentos o máximo possível e encarei o dark place e consegui fazer 25 wall-balls sem intervalo. 25! De um limite normal de ~5 em seguida! Isso só reforça – de novo – o limite mental sendo muito mais problemático que o limite físico.

Não estou falando que aumentar sua resiliência mental vai fazer a vida mais fácil, mas é bem provável que faça dela um pouco menos horrível. Como dizem os militares por aqui: “Embrace the suck”.

 

Técnica Pomodoro

Não sei você, mas eu tenho sérios problemas lidando com dois tipos de atividades: coisas que eu não quero fazer e coisas que me deixam fascinado.

O primeiro problema eu tenho certeza que todo mundo sofre. Aquela tarefa – normalmente no trabalho – que a gente não tem a menor vontade nem de começar. Mas como não temos opção a gente vai lá e pensa: Tá… vamos fazer isso. Precisa ser resolvido hoje. Não saio daqui enquanto não terminar isso!

“Só vou rapidinho olhar o twitter…”. “Opa! Chegou email.”. “Pera, como era o nome daquela banda?”. “Qual será a temperatura média em Sydney durante a primavera?”

E quando você percebe já está fazendo mil outras coisas, se engajando em uma parte do trabalho que você tem mais interesse e aí o dia acaba. São duas sensações que podem ou não aparecer juntas: “Trabalhei pra caramba naquela tarefa” / “Não fiz nada de produtivo hoje”.

Pra piorar às vezes nosso cérebro registra que trabalhamos naquilo e essencialmente largamos mão da tarefa nos próximos dias. Até que ela volte à mente devido a um prazo estourando ou algo assim.

Meu outro problema é com coisas que me fascinam.

No livro “The Rise of Superman: Decoding the Science of Ultimate Human Performance” o autor dá o nome de “flow” para aquele estado mental em que você está tão focado e imerso em uma atividade que o tempo, o espaço e até as limitações físicas parecem ser alteradas.

Apesar do foco do livro ser em esportes radicais isso se aplica a muitas outras atividades. Eu sem dúvida entro frequentemente em flow quando estou programando ou mesmo trabalhando em ops.

Apesar disso ser excelente pra produtividade não é exatamente o ideal pra saúde. Já me peguei trabalhando por duas, três horas com a cara grudada no monitor, sem tomar um gole de água ou levantar pra ir no banheiro. Quando retomo minha consciência corporal percebo que estou com a garganta seca e um imenso incômodo por causa da bexiga cheia. Já perdi reuniões e até hora de ir embora do escritório de tão focado em alguma coisa.

Fora que ficar sentado horas e horas sem dar alguns passos, fazer um alongamento nas costas e nos braços não é nada bom pra gente.

Entra a técnica pomodoro

A idéia é ajustar seu relógio com um alarme para cerca de 20 minutos e durante esses minutos trabalhar com 100% de foco numa única atividade.

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O ponto aqui é que 20 minutos é um intervalo de tempo que é longo o suficiente para ser produtivo, mas curto suficiente para ser tolerável até para as atividades mais chatas. O estado mental é exatamente esse: “Não quero fazer essa atividade, mas precisa ser feita de qualquer jeito. Então vou gastar só 20 minutinhos pra dar uma adiantada no serviço e depois faço outras coisas.”

Nesses 20 minutos coloque seu celular no silencioso, feche todas as abas do browser que não estiver usando pro trabalho em si (ou o browser se não envolver Internet). Feche seu cliente de email e desabilite todas as notificações de desktop. Feche a porta do seu escritório e tire seu telefone fixo (quem ainda tem isso??) do gancho. Eu trabalho num escritório aberto, então coloco fones de ouvido e pronto. Isolado do mundo.

Para coisas que não quero fazer eu uso esses intervalos de 20 minutos umas duas ou três vezes espalhadas pelo dia até terminar a tarefa.

Meu outro uso – que ultimamente anda sendo o mais comum – é para coisas que eu gosto de fazer. Ficar imerso numa atividade é bom, mas como disse acima não é o ideal para seu bem-estar físico e no longo termo não vai ser bom pra sua carreira também. Além disso vira e mexe ficamos presos por muito tempo em uma parte  específica da atividade que não conseguimos resolver. Dar uma volta, tomar um café ou se distrair no reddit por alguns minutos pode ser o suficiente para seu cérebro achar uma solução enquanto a mente inconsciente toma conta do problema.

Nesse caso ando usando pomodoro assim: Configuro 4 intervalos de 20 minutos. São 5 minutos de descanso entre cada intervalo. Pra mim isso é tempo o suficiente de ir até o banheiro mais longe da minha mesa, no andar de baixo, subir de volta pela escada oposta e pegar um café ou uma água na cozinha. Às vezes ainda dou uma olhada rápida no Twitter.

Depois do último intervalo de 20 minutos entra um descanso de 15 minutos. Esse é o tempo de lidar com emails, interagir com pessoas via Twitter ou Hangouts, ler meus feeds, etc.

Vou dizer que quando estou empolgado com alguma coisa é meio difícil me forçar a levantar. Principalmente quando estou no meio de testar alguma coisa ou acabei de pensar numa solução pra um problema. Mas reparei que, mesmo me forçando a interromper o que estou fazendo, os 5 minutos de intervalo intencional não passam nem perto de ser tão disruptivo quanto quando alguém te interrompe sem ser convidado. Nessas últimas semanas não perdi o fio da meada nem uma vez fazendo essas pausas.

Talvez seja só impressão, mas eu acho que passando a régua eu acabo sendo mais produtivo no total da semana do que se não usasse pomodoro. É fácil chegar num ponto de exaustão mental depois de várias horas concentrado num problema que o resto do dia é totalmente perdido. Esses intervalos de descanso dão uma aliviada e permitem mais horas totais de produtividade.

A conclusão é que, se você tem uma coisa muito chata ou muito legal pra fazer, experimente a técnica pomodoro por algumas semanas. Talvez funcione para você também.

Backup pessoal

Backup é uma coisa mais complicada do que deveria, eu acho… Não é complicado ter um backup, mas achar o balanço certo de freqüência, complexidade, número de cópias, custo e facilidade de restauração é menos intuitivo do que deveria, principalmente quando falamos de backup pessoal. Pelo menos para mim.

Depois de uns bons anos sempre sentindo que minha estratégia era insuficiente acho que finalmente cheguei num bom equilíbrio. Ainda passa longe de ser simples, mas acho que pelo menos em custo, freqüência, número de cópias e facilidade de restauração eu estou coberto.

O problema

Se você tem um set up parecido com o meu os seus dados estão espalhados em trocentos lugares: Disco local no seu PC, Google Drive/Photos, Dropbox, servidor local – no meu caso um raspberry pi, servidor remoto – eu uso o dreamhost – e talvez até outros.

O tipos de dados que precisam de backups também são diferentes: Fotos, músicas, documentos, código, configurações, senhas, banco de dados e etc precisam de estratégias diferentes, ocupam uma quantidade de espaço diferente e têm importância diferente.

A solução

Começando de fora pra dentro:

Dropbox

A grande vantagem do Dropbox é que ele sincroniza em múltiplos devices, então automaticamente tenho pelo menos duas cópias: Nos servidores do Dropbox e no meu PC.  Os dois problemas que posso ver são: 1) Eu apagar um arquivo por acidente ou 2) alguém hackear a minha conta e deletar meus arquivos.

Os tipos de dados que tenho lá posso considerar razoavelmente críticos (pra mim) e que eu preciso de acesso constante – Yay Android!

Pra tentar resolver isso eu tenho um script que roda a cada meia hora que faz rsync incremental do diretório do Dropbox para um outro diretório local. Esse diretório local entra no balaio de gato descrito mais pra baixo.

Google Drive

Os dados que tenho lá são críticos (90% dos meus documentos), mas não preciso de acesso imediato. Posso ficar algum tempo sem acesso.

Não faço backup desse. Acreditem em mim. Não precisa.

Dreamhost

Aqui estão hospedados meus blogs e de diversos amigos. Uso o Dreamhost faz muito tempo e nunca tinha tive problema com eles. O envolvimento deles com o sistema de arquivos Ceph também me dá um tanto a mais de confiança.

Não considero nada lá como crítico ou extremamente importante. faço backup duas ou três vezes por ano e oriento meus amigos a fazer backups adicionais eles mesmos se quiserem. No painel de controle deles tem uma opção “full backup” que gera uns 25GB cada vez que eu executo em convenientes .tgz por usuário e por database.

Raspberry Pi

Meu servidor local roda algumas instâncias de wordpress, DHCP, Bind e MySQL. Só faço backup do MySQL e dos WordPress, via um shell script bem simples uma vez por semana. Um .tgz com as instâncias e um .sql para cada banco de dados. Tudo executado remotamente via ssh e copiado para o meu PC e de lá pro backup principal.

Eu considero os dados lá razoavelmente críticos. Abaixo um screenshot:

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Nem brinca de perder isso
Meu PC

Como deu pra perceber quase tudo acaba convergindo pro meu PC. E além disso tem muito mais coisa que eu crio ou baixo diretamente nele ou então são dados e documentos de vidas passadas que estão armazenados nele. Tenho arquivos de mais de dez anos por aqui.

Também tenho uma quantidade considerável de fotos tiradas com câmera digital – ao invés do celular – que não vão pro Google Photos automaticamente. Músicas não são muitas, mas tão lá. Declaração de imposto de renda de 2007? Yup… Um bocado de lixo talvez, mas são meus dados. Deixa eles ai.

Pra começar chamar meu computador de PC não é muito correto. É um Dell PowerEdge T110. É um modelo servidor na verdade, o que ajuda. O sistema operacional está num SSD, mas os dados moram num mirror ZFS em dois discos de 1TB – primeiro nível de proteção, criando redundância em 100% dos dados com um sistema de arquivos sensacional.

No ZFS tenho 3 níveis de snapshot configurados: Ciclo de 5 dias, ciclo de 1 mês e ciclo de 1 ano. Segundo nível de proteção contra estupidez, caso apague alguma coisa por acidente ou tenha algum arquivo corrompido (por exemplo no Dropbox). Recomendo usar o zfSnap pra isso.

Isso parece bom, mas se você pensa como eu já sacou um problema: Se cair um raio e fritar meu PC eu me ferrei. Lá se foram meus dois HDs, ZFS, snapshots… Então pra isso eu tenho um HD externo USB de 1TB também com ZFS. É lindo usar ZFS send/receive e manter tudo sincronizado. Uma vez por semana é o suficiente e demora só alguns minutos (ou segundos) pra fazer um backup full da minha pool. Vale lembrar:

chakl

Mas aí, de novo, você está pensando: Tá… Vai que pega fogo na casa, ou estoura um cano e enche o porão de água afogando o PC e o HD externo. Ou alguém arromba no final-de-semana e leva computador, HD externo, etc, etc…  Verdade.

Agora dividi o problema em duas parte: Dados que precisam de backups atualizados (documentos, scripts, configurações) e dados que podem ser feitos backup só uma vez na vida e deixados num canto.

Pro segundo caso fotos são um exemplo clássico. Aquelas fotos de 2009 só preciso fazer backup uma vez e ter certeza que ele vai estar sempre disponível. E mesmo que demore uma semana pra restaurar essas fotos, caso eu as perca, não tem problema.

Minha solução pra esses dados foi usar storage do GCP (Google Cloud Platform). Mais especificamente o Nearline. Com um preço atrativo de 1 centavo de dólar por GB por mês eu estou gastando $0.25/mês pra ter o Google cuidando de 25GB de fotos pra mim. Estou no processo de subir um total de uns 100GB pro nearline de tudo que só preciso de um backup quieto num canto.

A última coisa que falta são as coisas que precisam ser mantidas atualizadas e são mais sensíveis – tanto em termos de disponibilidade como segurança – que são senhas, arquivos bancários, cópias de documentos, etc.

Pra isso acho que – finalmente – estou implementando uma solução. Um HD externo USB de 400GB que eu tinha jogado num canto. Com criptografia LUKS + ZFS eu posso sincronizar semanalmente só o filesystem ZFS específico que armazena esses tipos de dados e levar o disco pro escritório e deixar numa gaveta. Duro vai ser manter a disciplina. Ainda queria uma solução melhor pra esse… Sugestões?

austinpowers

Tudo que sei é que nada sei

Não era essa a idéia inicial do post, mas conforme fui juntando as idéias na cabeça, precisei admitir a realidade. Eu sou o John Snow… Eu não sei nada.

Estava pensando em escrever um post sobre como escolher a melhor ferramenta para um trabalho. Mais especificamente uma linguagem de programação para o problema em mãos. Uma rápida pesquisada aqui no blog e vi que comecei a mexer com Python em 2008. São 8 anos de experiência com a linguagem. Em muito lugar dá pra conseguir uma vaga de programador sênior com esse tempo todo.

Dois empregos atrás fiz um bocado de coisa em Python. Coisas tão simples como parsers e automação de tarefas e algumas mais complexas como auditoria anti-fraude e até webapps em Django. E eu estava me sentido confiante nas minhas habilidades em Python.

Ai mudei para outra empresa, no emprego imediatamente anterior ao atual. E eles tinham desenvolvido in-house um middleware para facilitar algumas atividades. E eu abri o código. E chorei. Mas de felicidade. Que código bonito e claro, tudo bem dividido e as classes e métodos todos fazendo muito mais sentido do que as coisas que eu já havia feito eu mesmo. E pela primeira vez eu ia ter outras pessoas (2) que também conheciam Python e eu ia poder trocar idéias.

Depois de uns 6 meses de casa eu fui encarregado de fazer a versão “2.0” da ferramenta e cheguei a conclusão que agora sim eu estava manjando bem de Python. Com muito mais horas por semana desenvolvendo a ferramenta do que fazendo ops, consultando um code base bonito e lendo muita documentação eu estava feliz com a minha performance.

Vale citar que eu estava trabalhando sozinho no projeto.

Avançando para o emprego atual, depois de uns meses de casa, resolvo fuçar no bugtracker e pegar uma coisinha para mexer. Uma coisa simples. Vou lá, modifico e rodo meus testes – como sempre fiz – executando contra um servidor no laboratório. Tudo funciona. Eu sorrio e fico orgulhoso de mim mesmo. Estou a ponto de enviar minha primeira contribuição.

A diferença é que na empresa atual eles realmente sabem o que estão fazendo. E todo código precisa ser submetido via uma ferramenta e precisa de peer-review.

Assim que submeto o código já tomo pancada da ferramenta. Não estou seguindo o style-guide corretamente. OK, corrigido depois de apanhar um pouco. Tento de novo. Rejeitado de novo. Uma pancada de unittest falhando. Unit test? Que ser isso? Tipo… já ouvi falar. Sei que existe, mas nunca fomos oficialmente apresentados.

Mas agora praticamente todos os meus colegas são experts em Python e uns dois ou três me introduzem o conceito e as ferramentas. Bato cabeça umas duas semanas mas consigo fazer os testes funcionarem. A ferramenta finalmente aceita meu código e submete para review. São só umas 20 linhas, todas seguindo o style guide e passando nos testes. Vai ser uma mamata.

O reviewer manda o código de volta, com umas 10 observações pedindo mudança.

muleque

Desde nome de variável até a lógica dos meus “if then else”. Se você pensar que de umas 20 linhas veio 10 comentários de volta dá pra imaginar que praticamente tive que reescrever tudo.

Muitos outros vai-e-volta depois meu reviewer aprova o código. Mas uma coisa que eu não sabia na época é que se o reviewer não for “dono” do projeto ainda precisa de mais um nível de review por um dos donos.

E adivinha? Rejeitado de novo.

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Deve ter sido mais de um mês até que finalmente pude submeter o código. E foi ótimo.

Eu achava que conhecia Python razoavelmente bem, mas meus reviewers foram verdadeiros mentores e me mostraram coisas na linguagem que eu não conhecia. Meu código melhorou de simplesmente “funcionando” para algo muito mais idiomático e “pythonico”.

Pesquisei esses dias e descobri que desde então já submeti mais de 2300 linhas de código. Puxando de cabeça, acho que foram uns 30 ou mais commits nesse total. E desses todos exatamente duas vezes eu tive meu código aprovado de primeira pelo meu reviewer. Uma dessas vezes eu submeti uma mudança de 1 linha, corrigindo ortografia de uma palavra no docstrings. 😛

Cada vez mais eu escrevo meu código com mais cuidado e atenção e raramente tomo chamada por causa de estilo, mas vira e mexe ainda tomo pancada por causa de nome de variável. Aparentemente eu ainda não sei distinguir de quando usar timeout ou time_out, por exemplo.

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O fato é que cada semana que passa mais eu percebo que eu não manjo nada de Python. Trabalhei num código por quase um mês, mandei pra revisão e tomei pancada. Meu revisor sugere que eu tente outra abordagem. Largo meu código original e reescrevo seguindo a idéia dele. Está tudo funcionando em dois dias, com muito menos linhas e complexidade, e passa pelos dois níveis de review. :-O

O que eu entendi disso tudo é que nós avaliamos nosso conhecimento e capacidade baseados em quem nos cerca. E infelizmente se estamos sozinhos ou apenas com uma ou duas pessoas ao nosso redor é fácil super-valorizar nosso conhecimento e deixar nosso ego se encher.

Agora eu estou cercado dos melhores profissionais com quem já trabalhei e percebi que minha barra está muito abaixo da média lá na empresa. Às vezes nem sei como entrei, pra dizer a verdade, mas estou aproveitando ao máximo meus reviewers e mentores porque eu reconheço que dos meus “8 anos de experiência” eu não sei nada.

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Inteligência Artificial

Talvez porquê lá na firma Inteligência Artificial seja um assunto popular eu ando lendo e me interessando cada vez mais pelo assunto.

Nos últimos 20 ou 30 anos IA tem sido basicamente coisa de ficção científica e restrito apenas a Hollywood. É verdade que algumas incursões foram feitas no mundo real, como o Deep Blue da IBM derrotando Kasparov no xadrez em 1997.  Mas xadrez é exatamente um exemplo que coisa que um programa de computador “normal” é bom. Pode ser reduzido a um algoritmo “simples” e todas as possibilidades de jogadas podem ser calculadas e avaliadas num tempo razoável.

Deep_Blue

Para quem não é da área de TI, vou dar um exemplo de um algoritmo “normal”. Você mostra uma foto de um gato para um computador e pergunta o que é aquilo. O computador vai na base de dados dele e olha a primeira foto (um cachorro) e compara as duas. E chega a conclusão que não é o mesmo bicho. Ai ele puxa a próxima foto, de um elefante, e compara novamente. Não é o mesmo bicho… E continua por toda a fauna até que ele acha uma foto de um gato, compara com a foto que você mostrou e chega a conclusão que é o mesmo bicho.

Obviamente essa não é a mesma forma como nós, humanos, pensamos. Você vê uma foto de um gato e reconhece na hora. Ainda mais: mesmo que eu mostre para você uma foto de uma raça de gato que você nunca viu e ainda que alguém tenha pintado o bichano de cor-de-rosa você ainda vai reconhecer o gato. Não é o caso de um computador usando um algoritmo tradicional. Ele simplesmente não vai reconhecer o gato, já que na sua base de dados não tem aquela informação para comparar.

Felizmente de alguns anos para cá grandes avanços tem sido feitos. Mas mesmo tendo lido diversos artigos, notícias, assistido palestras (algumas bem exclusivas lá na firma) e interagido com IA quase todo dia, eu nem sequer me arrisco a tentar entender como esses novos algoritmos de inteligência artificial funcionam. Até onde posso explicar é pura mágica.

A grande mudança nos últimos 5 anos (ou menos) é que as IA estão deixando de ser específicas (como um computador que joga xadrez) e virando genéricas: Um mesmo sistema pode aprender a jogar xadrez, compor música e dar conselhos médicos ou legais. Note que a palavra chave aqui é aprender.

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Nos algoritmos tradicionais e antigos de IA os programadores tinham que gerar uma base de dados enorme, explicar as regras e interações das coisas para o computador. Era mais ou menos como se disséssemos:  “Olha, quando alguém derrubar o seu rei é cheque-mate e você perdeu”. “Olha, se tem pelos é mamífero, sem tem penas é ave”. E assim por diante.

As novas IA são capazes de aprender observando o mundo natural. Vários artigos pela Internet contam sobre IA que foram colocadas na frente de um video-game sem explicação nenhuma das regras do jogo e basicamente elas começaram a jogar uma partida atrás da outra até entender o jogo. Em todos os artigos que li em uma questão de dias (ou algumas horas) a IA se tornou melhor do que qualquer jogador humano jamais poderia ser.

Mas enquanto as aplicações nos campos científicos e acadêmicos são enormes, o que me interessa mesmo é o uso no meu dia-a-dia. E ninguém faz melhor uso de IA em produtos para o consumidor final do que o pessoal lá da firma™.

Vou dizer que às vezes eu ainda me assusto com algumas coisas, mas de forma geral eu quero ver mais e mais aplicações diárias de IA. Ou, se a minha assistente pessoal continuar ficando mais esperta a cada dia, já vai ser mais do que o suficiente.

Sei que tem muita especulação por aí tentando prever se IA vai tirar empregos das pessoas, criar caos ou até desenvolver consciência e se rebelar contra os humanos, no melhor estilo exterminador do futuro, mas pelo menos no momento me parece que IA está mais agregando do que removendo… O futuro ainda a ser definido.

Skynet_logo

#Murph

Esse post precisa de um tanto de contexto, então tenham um pouco de paciência com a introdução. 🙂

Militares

Ao contrário do Brasil, onde os militares variam entre desprezados e odiados, aqui na América do Norte (tanto no Canadá como nos EUA) os militares são heróis nacionais, muito respeitados pela sociedade.

O alistamento militar não é obrigatório, mas mesmo estando envolvidos em guerras e com a certeza de serem mandados para alguma zona de combate uma quantidade enorme de gente se alista em alguma das armas.

Halifax, por exemplo, é a Base Naval do Leste das forças armadas canadenses, então muita gente por lá se alista na Marinha. Aqui nos EUA parece que os Marines são bem populares, mas tem gente que se alista desde o exército até a guarda nacional.

Se alistar vem com suas vantagens: Além da possibilidade de seguir carreira militar, eles pagam seu estudos, o que é uma grande vantagem por aqui onde normalmente as pessoas não estudam e trabalham ao mesmo tempo e portanto acumulam uma enorme dívida durante a faculdade. Isso sem contar que militares e veteranos não pagam licenciamento de automóveis e tem descontos significativos em restaurantes, serviços e até algumas lojas e mercados.

Em honra ao militares que perderam suas vidas ao serviço do seu país tanto o Canadá como os EUA tem um feriado em respeito a eles: Remembrance Day (Canadá) e Memorial Day (EUA).

Hoje é Memoria Day.

CrossFit

Não sei quão popular CrossFit está aí no Brasil, mas por aqui é um bocado popular. Cada academia faz sua própria programação (WOD – Workout of the Day), mantendo em mente “movimentos funcionais constantemente variados realizados em intensidade relativamente alta, refletindo os melhores aspectos de ginástica, halterofilismo, corrida, remo e etc.”

Além disso, ainda existem alguns WODs que são chamados benchmarks. Entre eles estão “as meninas“, que são WODs com nomes de mulher – como Cindy, Daiane e Helen – os do open – como 16.1, 15.4, etc – e os “heroicos”.

Heroicos são WODs com o nome de militares que morreram na linha de combate. Alguns desses militares eram praticantes de CrossFit e tinham um WOD favorito que eles mesmos haviam criado e por isso esses WODs são batizados em homenagem a eles. O mais famoso desses WODs Heroicos é o Murph.

Michael P. Murph era um tenente da Marinha americana – Navy Seal – que morreu em combate no Afeganistão em 2005. Ele recebeu uma enorme quantidade de condecorações – em vida e póstumas – pelo seu serviço e é um verdadeiro herói nacional por aqui.

O WOD favorito do Tenente Murph era:

  • Correr uma milha
  • 100 flexões na barra
  • 200 flexões de braço
  • 300 agachamentos
  • Correr uma milha

Isso tudo utilizando seu colete à prova de balas de 20lbs (+/- 9Kg).

The-Murph

 

O dia de hoje

Com esse contexto em mente, é tradição em todas as academias de CrossFit agendar “Murph” para o Memorial Day (ou Remembrance Day no Canadá).

Eu sempre preferi tirar o dia de folga no Remembrance Day no Canadá. Mais pelo medo de enfrentar o Murph do que por qualquer outra razão. Mas eu já tinha colocado na cabeça que esse ano eu iria fazer. Eu pensei em treinar bem o ano todo e me preparar psicologicamente. Tudo ia ser bem planejado. Afinal, remembrance day é só em Novembro.

Ops… Deu um problema no meu plano já que o Memorial Day é em Maio. Teve que ser no vamos-ver-no-que-isso-dá.

A primeira decisão foi logo dispensar o colete. Sem condições de fazer isso tudo com 9Kg a mais.

A segunda foi: Como quebrar esse tanto de exercício? Fazer exatamente como descrito é o que eles chamam de “warrior style” (método do guerreiro). Mas a maioria das pessoas acaba fazendo em “Cindy style”.

Cindy é uma das meninas do CrossFit (citada acima) onde faz-se:

  • 5 flexões na barra
  • 10 flexões de braço
  • 15 agachamentos

O máximo de vezes possíveis durante 20 minutos.

Então fazer Murph, Cindy style seria:

  • Correr 1 milha
  • 20 rounds:
    • 5 flexões na barra
    • 10 flexões de braço
    • 15 agachamentos
  • Correr 1 milha

O problema para mim é que flexão de braço me deixa fatigado muito rápido. Se eu chego num ponto de exaustão eu simplesmente travo os braços e não consigo fazer nem mais uminha. Então para evitar isso eu fiz o seguinte:

  • Correr 1 milha
  • 20 rounds:
    • 5 flexões na barra
    • 5 flexões de braço
    • 15 agachamentos
    • 5 flexões de braço
  • Correr 1 milha

A esposa foi mais valente do que eu e foi de Cindy Style. Em compensação ela fez as flexões na barra usando tiras elásticas (como na foto abaixo) e as flexões de braço apoiada nos joelhos.

Band-Assisted-Pull-up

 

Eu tinha me colocado o firme propósito de terminar em mais ou menos 1h20m. Mas qual foi meu choque ao chegar na academia e ser informado que o tempo máximo permitido seria de 1h. E pior: Se até os 45 min você não tivesse terminado a parte principal do WOD você iria ser interrompido e mandado pra correr a última milha sem terminar. Já bateu um desânimo ai.

Aos 38 minutos eu ainda tinha meia dúzia de rounds e a exaustão tava pesada. Os calos das mãos começaram a ceder e pouco depois já estava sangrando e eu considerei desistir. Aos 43 min ainda tinha dois rounds. Não sei onde achei energia e velocidade pra chegar a esse ponto. Já estava com visão tunelada e com a certeza que não ia conseguir, mas aos 44:30 mais ou menos terminei e sai para corrida. “Corrida”… Precisei andar um pouco e mesmo quando corria não era rápido. Depois de 300 agachamentos as pernas parecem geleia. Que sensação horrível foi na volta, que era subida.

Fui o penúltimo a terminar na nossa sessão, com um tempo de 55m:26s. Me surpreendi com o resultado, 25 minutos melhor do que o planejado. E acho que ano que vem vou tentar de colete.

A outra coisa é que achei que estaria totalmente podre depois do Murph, tipo precisando de uma cadeira de rodas e uma semana de descanso, mas até que não. Acho que vou tirar um cochilo de tarde e talvez ir nadar amanhã ao invés de CrossFit, mas nem de longe estou tão ruim quanto achei que estaria.

De uma forma geral foi um WOD desafiador, mas divertido e em honra aos militares que dedicam suas vidas para protegem suas pátrias. Valeu a pena participar.

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Esposa e eu depois do WOD

Introvertidos

UPDATE: Um guia ilustrado para entender os introvertidos. (/via @andreyevbr)

Que eu e a esposa somos introvertidos a gente já suspeitava. Mas recentemente lemos um livro chamado “Quiet: The Power of Introverts in a World That Can’t Stop Talking” e vixi… podia substituir “introvertido” pelo meu nome de capa à capa que ia ser perfeito.

Eu sei muito bem como percebo o mundo e como me sinto cada vez que preciso interagir com outras pessoas, mas o bom do livro é que deixou claro que nem todo mundo tem a mesma perspectiva. Pelo contrário, esse povo chato, barulhento e que nunca pára de falar aparentemente chamam-se extrovertidos. E são a maioria da população.

Aparentemente essas pessoas “extrovertidas” gostam de interagir com outro seres humanos. Gostam de falar no telefone, visitar casa de outras pessoas, receber pessoas na suas próprias casas, sair para se confraternizar, fazer ou participar de festas, conversar… Enfim: Ter momentos sociais.

Porquê alguém em sã consciência desejaria qualquer uma dessas coisas de livre e espontânea vontade está acima da minha compreensão.

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Em inglês tem a expressão “small talk”, que é ficar batendo aquele papo vazio pra matar o tempo e preencher o silêncio numa situação. Eu odeio small talk. Por outro lado não me sinto nem um pouco incomodado em passar 4 horas com uma pessoa e não falar mais do que meia dúzia de frases. Aliás, acho que quando estou no trabalho não falo muito mais do que isso nas 8 horas que estou lá em uma grande parte dos meus dias.

Lembro que quando era criança às vezes eu queria alguma coisa, tipo um doce, e pedia pro meu pai comprar. Ele me falava: Eu te dou o dinheiro e você vai e compra sozinho, pode ser? Inúmeras vezes fiquei sem o doce. E não mudei muito. Se não fossem lojas como Amazon, Ikea e outras que me dão a opção de self-service até hoje eu ia preferir ficar sem o meu doce.

Eu, por exemplo, prefiro fazer um tratamento de canal do que comprar um carro e ter que ficar conversando com vendedor. Quando vão abrir concessionária que você seleciona o modelo online, paga online e eles entregam o carro na sua casa?

Se bem que tratamento de canal é um péssimo exemplo… Alguém tem um dentista mudo pra indicar? Além do fato de eu já não gostar de small talk, ainda to com a boca aberta e anestesiada! E nego fica puxando assunto!

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Dentre as várias coisas que odeio a que me faz me sentir mais culpado é reunião/festa de família. Não me entenda mal. Eu amo todos individualmente, mas todos ao mesmo tempo é overwhelming. Qual a palavra em português pra overwhelming, hein? Achei “esmagador” e “opressivo”, mas acho que são um pouco demais… Sendo uma família de gente extrovertida ainda, piorou. Todo mundo na mesa, falando alto, rindo, querendo interagir. A hora do brinde então? Minha nossa… que sofrimento.

Infelizmente nós introvertidos temos que viver no mundo que nos rodeia e adaptação é necessária, mas algumas escolhas que a gente faz na vida acabam sendo uma fonte de stress.

Nosso hábito de ficar mudando de cidade / estado / país por exemplo: Toda vez que se chega num lugar novo acaba gerando curiosidade de outras pessoas, que vêm puxar conversa com a gente, perguntar sobre a nossa vida, convidar a gente para jantares/festas/eventos, tentar fazer amizade… E tudo que eu quero é ser deixado no meu canto. Mas é preciso ser pelo menos um pouco social, principalmente com pessoas da igreja, trabalho e crossfit.

Aliás, como introvertido eu tenho uma reclamação contra a prática comum de muitas igrejas de ter um momento durante o culto para “cumprimentar os irmãos”. Devia ter uma opção de mandar um email pra uma lista: “Bom dia!”

Mas a adaptação mais necessária é no trabalho. Vira e mexe é preciso fazer apresentação, participar de reuniões com uma grande quantidade de gente, falar no telefone com clientes ou parceiros. E entrevista para um novo emprego então? Eu fiquei muito bom nisso e acho que passo desapercebido quando visto minha máscara de extrovertido, mas é emocionalmente cansativo. Quando chego em casa no final do dia estou exausto, não necessariamente por causa do aspecto técnico do trabalho, mas do fator humano.

Sou grato porquê no trabalho atual (e mesmo no imediatamente anterior) isso não tem sido mais um problema. Mas essa semana acho que vai ser pesado. Nosso time está dividido em NASA/EMEA/APAC e essa semana todos vão convergir para o nosso escritório aqui no Colorado e confraternização e socialização é esperado. (-_-)

Se você também é introvertido uma dica que eu posso dar é: Não se force a ser extrovertido. Coloque sua máscara de vez em quando, se a situação realmente exigir, e tenha certeza de conseguir reservar um tempo de silêncio e solidão para recarregar as energias. A vida ainda vai funcionar – e provavelmente será mais agradável – se você aprender a falar não para convites sociais. Aliás isso é uma coisa que aprendi com os gringos. Brasileiro nunca fala não pra nada. Rola até aquele “a gente combina um dia”. Mas brasileiro nunca fala não.

Por fim quero deixar claro que introvertidos não são totalmente anti-sociais. Com quem consideramos realmente amigos e gostamos não temos problema em passar horas conversando, visitar ou receber como visitas até por tempos prolongados. Na verdade amizades e conversas profundas são agradáveis. É só aquela interação social superficial e pró-forma que é um peso. E aliás, amigo é aquela pessoa com quem você pode passar horas junto sem abrir a boca e sem ser desconfortável. Ou passar anos sem se encontrar ou socializar e a amizade continuar inabalada, como se tivessem se encontrado ontem.

Se tiverem algum comentário, deixem aí… Mas não me liguem.

Nós e eles

Por mais que eu queira me isolar de notícias do Brasil, infelizmente não existe um jeito de filtrar minha timeline do Twitter, então acabo ficando sabendo mais ou menos do que está acontecendo. Nunca (ou raramente) clico nos links mas mesmo só com os 140 caracteres, fotos e screenshots leio o suficiente para ver o que o que rola por lá. E esse post vou abordar uma coisa que tem me chamado a atenção…

Vou começar falando de um estudo que li a respeito. Não vou ter o link agora e sou preguiço. Vai no Google e procura se quiser. 😛

No estudo voluntários foram divididos em grupos (sem o conhecimento deles, lógico). Cada voluntário de cada grupo foi levado individualmente a uma sala onde deveria ler um texto e fazer uma redação.

No primeiro grupo o tema era sobre seu time de futebol favorito. No segundo grupo o tema seria a paixão pelo futebol. O terceiro grupo um assunto qualquer que não vou me lembrar.

Depois de terminarem a redação cada voluntário era informado que deveria ir até um outro prédio algumas quadras de distância para a segunda parte do estudo.

Mas no caminho entre os dois prédios um ator vinha numa bicicleta e fingia tomar um belo tombo. E agora a parte real do estudo: O ator vinha utilizando uma camisa do time adversário do voluntário.

Usando como referêcia o grupo que leu/escreveu sobre um assunto qualquer os pesquisadores observaram que quem leu/escreveu sobre a paixão pelo futebol ao ver um “colega” também apaixonado pelo futebol cair era muito mais predisposto a ir correndo ajudar e ver se o ator estava OK.

Por outro lado os que leram/escreveram sobre seu time favorito praticamente ignoraram o “adversário” que tomou um tombo!

Isso demonstra fortemente que nós temos a tendência de separar o mundo entre “nós” e “eles”, o que não é surpresa. Porém fica extremamente evidente que “nós” e “eles” depende de contexto.

 

Voltando ao Brasil, o que eu vejo é uma polarização ridícula, a separação de “nós” e “eles” totalmente baseada em contexto e não em realidade.

O país está no fundo do poço, os políticos – TODOS – fazem o povo de idiota há décadas e as pessoas ainda acham que é direita contra esquerda.

E pelo que vejo não só isso… É motorista contra ciclista, taxista contra motociclista, classe média contra classe baixa…

Deixem de serem ridículos. Isso ainda vai acabar em guerra civil.

Mas como sempre, não sei porquê estou me preocupando.

notmyproblem