Um mês em casa

By | December 9, 2017

Nem parece, mas essa semana vai completar um mês que estamos de volta à Halifax.

Morar nos Estados Unidos foi uma experiência interessante, porque é um país tão igual, mas ao mesmo tempo muito diferente do Canadá.

No que é igual obviamente o idioma, as lojas e restaurantes de franquia, os carros, músicas, filmes, programas da TV e esportes (apesar dos americanos terem mais inclinação para futebol americano e os canadenses para o hockey). O enorme número de imigrantes e estrangeiros também é algo em comum.

Por outro lado algumas diferenças são chocantes. Falando da população média a impressão é que os Canadenses são em geral mais cultos e sabem mais sobre o mundo.
Eles têm curiosidade sobre outras culturas e não é raro perguntarem como se diz uma coisa ou outra em português. A atitude nos EUA é “This is america. Speak English!”

Lidar com o governo então, nem se compara. Apenas como referência, cruzar a fronteira com o carro abarrotado de coisa, cachorro, papelada para importar nossa mudança que estava a caminho e restabelecer nosso país de moradia novamente como Canadá demorou menos do que o tempo que costumava gastar só na fila da imigração americana cada vez que voltava de viagem. Sem contar as horas extras de quando eles resolviam me dar o tratamento cinco estrelas </sarcasmo>. Cheguei a perder vôo de conexão por isso.

Os canadenses são muito patriotas, mas nos EUA é assustador. Chega à beira da idolatria como eles reverenciam o país e a bandeira. Nessa última eleição (que daria um post à parte, mas acho melhor não) ouvi mais de uma vez pessoas dizerem que “É um marco exclusivo da democracia americana a transição pacífica de poder”. Sim, porque aqui no Canadá, por exemplo, o antigo primeiro ministro é sempre arrastado pelas pernas e jogado pelado e amarrado numa pedra dentro de um lago congelado. Também ouvi falar que na Europa o novo presidente queima o antigo em praça pública. Ainda bem que existe a américa, né?

De maneira geral os americanos são rudes e mal-criados e parece existir uma atmosfera de constante tensão. Aliás, essa atmosfera não é nem um pouco aliviada pelo fato de porte de arma ter pouca ou nenhuma regulamentação. No Colorado você pode literalmente ir num supermercado e comprar 2 litros de leite, uma dúzia de ovos e uma 9mm.

Não me entendam mal. Eu sou à favor do porte de arma. Mas com uma legislação forte, checagem de ficha criminal, treinamento de segurança obrigatório e um período de espera de 2 ou mais semanas entre encomendar uma arma e poder receber-la. Saber que qualquer louco poderia parar num Walmart e sair com um rifle automático nunca me deixou tranquilo. Aliás, porque raios rifle automático é permitido para civis? Aqui no Canadá não é.

A atitude em relação à imigrantes também é bem diferente. O governo americano deixa patente que você não é bem-vindo. A forma como eles se referem à estrangeiros vivem no país (não naturalizados) é “aliens”. Aqui no Canadá é “landed immigrants”. Na prática é a mesma coisa, mas eu sinto uma conotação pejorativa e agressiva em “aliens”.
As leis em volta de vistos são feitas para prejudicar quem vai pra lá para trabalhar. Eu tinha um visto TN1, exclusivo para cidadãos canadenses. Mas a esposa tinha um visto TD (D para dependent), onde ela não tinha permissão para trabalhar. Até trabalhar remotamente para uma empresa canadense seria ilegal!

Finalmente a minha impressão é que os EUA é um país em conflito. Brancos contra negros. Cidadãos contra imigrantes. Governo contra os cidadãos. Não é bonito de ver. Rola aquela vergonha alheia assistir o noticiário. Não existe o menor senso de comunidade e sociedade. Similar ao Brasil, mas totalmente o oposto do Canadá.

Foi uma experiência interessante e não me arrependo de ter passado dois anos lá. Sei que falei pouco do meu emprego, mas valeu cada desconforto, enrosco e burocracia que tivemos que enfrentar. Foi um conflito interno muito grande decidir voltar, mas Canadá é minha casa.

Lógico que tudo que eu disse não tem base científica nenhuma e reflete apenas minha experiência pessoal.

No tag for this post.

One thought on “Um mês em casa

  1. Wanderley

    Olá Eri, tudo bem? Como sempre, ótimo Post. Desejo um feliz retorno ao Canadá. Gostaria de “encomendar” um comparativo entre Crossfit USA e Canadá.
    Essa falta de senso de “comunidade e sociedade” e diferenciação do imigrante é também forte dentro do “Box”?

    No mais, grande abraço.

Comments are closed.