Vê se ia dar certo…

By | January 20, 2019

É triste dizer, mas alguns modelos de negócio só dão certo em países honestos. Tem coisa que simplesmente não iria durar no Brasil, onde a cultura de ser “esperto” e levar vantagem em tudo permeia a sociedade.

Acho engraçado o povo que critica os políticos corruptos e ai faz gato de energia e TV a cabo, compartilha senha do Netflix ou usa desconto de funcionário pra revender mercadoria do empregador.

O problema

Os leitores mais antigos sabem que adoro cachorro e sempre fui chegado em adestramento. E também que recentemente adquiri um filhote de Cão Pastor Alemão, com o qual ando dedicando um bom tempo em adestramento.

Pois bem: Estamos no alto do inverno canadense, onde amanhece por volta das 8 da manhã e já escurece pouco depois das 4 da tarde. Isso sem contar as temperaturas congelantes, neve, vento, gelo, etc. Então não é que posso ir no parque pra treinar.

O negócio

Aqui perto de casa tem um mini-complexo com diversos galpões e uma moça (eu acho que é moça, tem muito cara de novinha) fez o seguinte: Alugou um desses galpões, colocou um piso especial, encheu de equipamentos para treino de cães (obstáculos de agility primariamente), adicionou uma lojinha com brinquedos, petiscos e acessórios e começou a oferecer adestramento de cães no local, que tem aquecimento e é utilizável o ano inteiro.

Mas como ela mesma só poderia gastar um número limitado de horas dando aulas ela fez o seguinte: Disponibilizou o local para ser alugado por outros adestradores. Se você é adestrador e precisa de um local bacana para encontrar com seus clientes, dar um seminário, etc, você pode alugar o salão por $7.50 a cada 15 minutos + impostos.

Dá pra perceber que a moça já pode trabalhar menos e ganhar mais só por disponibilizar para outros usarem o local. Mas ela não parou ai:

Se você é uma pessoa comum, assim como eu, e quer usar o local você pode pagar uma taxa fixa de $85/mês (impostos incluídos) e usar o quanto quiser. Basta olhar no calendário do salão e se tiver um horário vago você reserva e utiliza. Os horários de pico são disputados, mas eu pedi se podia ter das 5:15 às 6:15 da manhã todos os dias da semana e não tive nenhuma objeção. Nem preciso ficar remarcando 🙂

Logan na rampa

O que me leva à parte que não funcionaria no Brasil.

Honor system

Aqui diversas coisas são baseadas no “Honor system”: a system of payment or examination that relies solely on the honesty of those concerned.

Numa tradução mais ou menos: “Um sistema de pagamento ou exame que depende da honestidade das partes envolvidas“.

A empresa da moça é super leve. Acho que é basicamente ela. Não tem secretária, recepcionista, segurança, vendedor, nada.

Quando você assina o contrato ela te dá a senha da fechadura eletrônica (é uma senha só pra todo mundo) e te explica que se quiser alguma coisa da lojinha é só pegar e anotar num caderninho que tem em cima de uma mesa. Ela cobra junto na próxima fatura.

O local não tem câmeras, controle de acesso nem nada.

Agora digam para mim quanto tempo ia durar um negócio desse no Brasil. Não vou nem contar atividade obviamente criminosa, como alguém arrombando o local de noite e roubando os equipamentos e tudo da lojinha. Vamos apenas analisar algumas formas que o Brasileiro ia levar a moça à falência:

  • Outros adestradores iriam assinar o contrato de pessoa física pra pagar somente $85/mês ao invés dos ~$30/hora que cabe aos profissionais.
  • Diversas amigos que tem cachorros iriam “fazer uma vaquinha” e alugar o lugar em nome de somente um deles, compartilhariam a senha da fechadura e no final umas 10 pessoas iriam usar o local com apenas uma mensalidade
  • Sem câmeras ou trancas na lojinha? Se passar do dia 2 sem ninguém furtar nada eu ficaria impressionado
  • Arrumar as coisas e deixar tudo nas condições que encontrou antes de sair? Não sou empregado de ninguém né? Se quiserem arrumar que arrumem eles.
  • Cuidado com as coisas dos outros? Nem pensar. Se quebrar quebrou.
  • Recolher cocô ou limpar o xixi se seu cachorro tiver um acidente durante o treino? Há. Conta outra. Vou embora e ninguém vai saber quem foi mesmo.

Enfim

Já dizia o outro que o problema do Brasil é o brasileiro.

Mudem de partido, presidente, vão pra direita, pra esquerda… Não interessa. O problema não são só os políticos. É o povo inteiro.

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4 thoughts on “Vê se ia dar certo…

  1. Erick Leandro Rodrigues

    Primeira vez no site, estava lendo um artigo de 2008 e resolvi ler este mais atual, eu digo isso às pessoas aqui, não adianta dizer que político A ou B, de partido C, D ou E são ladrões se o brasileiro gosta de “cortar caminho” até na fila de entrada do metrô para não pegar fila e perder o que está parado na plataforma pois está atrasado para o compromisso diário, par depois colocar a camisa da seleção brasileira e bater panela feito um babaca… Pior é que isso nem sempre acontece com os mais desfavorecidos, aqueles que conseguem viajar para Miami todos os anos o fazem com bastante frequência e o impacto, (sonegações de impostos, não pagamento de direitos trabalhistas aos seus empregados, e por aí vai) são tão nocivos quanto os que te assaltam à mão armada, e os de colarinho branco, os piores “de la raza”…

  2. Mari

    Linda história a sua! Brasileiros estão muito acostumadas com aquele ditado “achado não é roubado”. Mas como professora venho fazendo na biblioteca um trabalho na contramão, inclusive deixo o livro de empréstimos a vontade, quem leva e quem devolve o livro faz a anotação. No começo aconteceram coisas estranhas, adolescentes roubaram livros, mas hoje em dia isso acontece menos. Precisamos acostumar que o normal é ser honesto e generalizar 200.000.000 de pessoas fica complicado. Por exemplo, fui pro sul nessas férias, e imagino que essa sua história poderia acontecer lá tranquilamente.

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