O Mundo Sem Internet

By | September 6, 2012

Hoje assisti um vídeo do Parafernalha chamado “O Mundo Sem Internet“. A abordagem humorística é excelente e mostra como o mundo seria bem melhor sem Internet. O vídeo coloca a piada em cima de redes sociais e o vício das pessoas. Ao final de 7 anos passados no mundo hipotético do vídeo as pessoas estão mais saudáveis e ativas, as artes voltaram a florescer e as pessoas são mais felizes.

Mas ai meu lado geek deu uma de marrudo e disse que isso era ridículo, já que o caos iria reinar. E aqui segue o que eu penso que iria acontecer se a Internet caísse.

Primeiro vamos pensar no que pode potencialmente derrubar a Internet, uma rede que foi criada primariamente para resistir a falhas:

Temos dois componentes na Internet (e em qualquer outro tipo de rede): Lógico e físico, de forma que potencialmente uma falha em apenas um deles pode derrubar a Internet.

Lógico

Do ponto de vista lógico a única forma que eu enxergo de derrubar a Internet seria um ataque coordenado e bem sucedido à DNS root zone.

Derrubando o acesso aos root servers a Internet não estaria tecnicamente fora do ar, mas na prática estaria inutilizada já que a maioria absoluta do tráfego se baseia em nomes.
É possível que muitas empresas e transações ainda continuassem operando, visto que não é incomum utilizar-se de endereços IP tanto em VPNs como em transações entre servidores em operações de alta importância por questões de segurança (evitar ataques de DNS poisoning, por exemplo).

Mas conseguir derrubar todos os servidores root é mais complicado do que parece. Apesar de serem apenas 13 para toda a Internet na verdade quase todos são clusteres, operados por empresas privadas, agências governamentais, universidades e ONGs em diferentes partes do mundo.

Não vou dizer que é impossível, mas boa sorte tentando derrubar tudo isso.

Físico

Se derrubar a parte lógica é complicado, derrubar a parte física eu diria que é quase impossível. Impossível sem destruir metade do mundo no processo, bem entendido.

A grande vantagem da Internet é sua capacidade de reconhecer falhas e conexões perdidas e encontrar um caminho diferente pra chegar no mesmo lugar.

Imagine você querendo ir trabalhar e uma das ruas que você costuma pegar está fechada. Você pega um desvio, mesmo que seja mais longe ou com limite de velocidade menor, e eventualmente chega no seu destino. Exceto se você for muito azarado e morar numa rua sem saída e for a sua própria rua que está fechada mesmo que tenha que rodar 500Km a mais você pode potencialmente achar outro caminho pra chegar onde quer. E se você não conseguir nem sair de casa o problema é apenas seu. E não do transporte mundial.

Da mesmo forma o seu acesso à Internet pode estar indisponível porque seu computador está com problema, ou seu provedor está com problema, ou mesmo o acesso internacional do seu provedor está com problema, mas ainda assim a Internet mundial ainda estará no ar.

Um exemplo disso foi quando uns poucos anos atrás a âncora de um navio destruiu um cabo submarino que era o principal ponto de acesso  do Egito à Internet. A Internet estava fora do ar no Egito, mas no resto do mundo as coisas estavam totalmente normais.

No ambiente corporativo é extremamente comum ter-se acesso redundante à Internet. Na empresa onde trabalho, por exemplo, nosso ambiente de produção está conectado a 5 provedores numa configuração BGP. Isso significa que mesmo que o nosso provedor principal pegue fogo e não sobre um único cabo ligado o nosso acesso à Internet continuará funcionando normalmente, apenas pegando um “desvio” por outro caminho.

E é por isso que eu digo que pra derrubar a parte física exigiria destruir metade do mundo. As conexões principais da Internet (backbone) são compostas por diversos meios físicos (Fibra óptica, satélites, fios de cobre, microondas, etc) e estão espalhadas por localidades físicas diferentes onde se inter-conectam em múltiplos pontos de formas diferentes.

Só pra ter uma idéia, de uma olhada no mapa de cabos submarinos.

Dá pra ver ali no mapa vários cabos que vão do Brasil pros Estados Unidos, por exemplo. Mas imagine que de alguma forma todos os cabos entre os dois países parem de funcionar ao mesmo tempo.

A Internet vai facilmente reconhecer o problema criar algum caminho maluco, como Brasil -> África do Sul -> Malásia -> Austrália -> Estados Unidos

Tudo vai ficar muito mais lento, problemas irão acontecer, pessoas irão xingar muito no Twitter, mas a Internet não vai cair. E isso falando apenas de cabos submarinos. Com certeza existem cabos continentais, além dos links via satélites e microondas.

Então para efetivamente derrubar toda a infra-estrutura física da Internet alguma coisa terrível como EMP (Pulso eletromagnético). Mas nesse caso a humanidade estaria com problemas muito maiores que falta de Internet, já que absolutamente tudo que é moderno (de carros até usinas de energia) iriam simplesmente parar de funcionar.

Aconteceu

Mas OK, vamos imaginar que uma desgraça aconteceu e por um acaso toda a infra-estrutura física foi comprometida mas o resto do mundo ainda está normal. Como seriam os nossos dias?

Não existir mais seu email, MSN, Facebook, Twitter, etc é apenas a ponta do iceberg. Seu Internet Banking também iria desaparecer, de forma que você seria obrigado a ir até a agência para fazer qualquer operação.

Mas não vamos esquecer que a infra-estrutura física foi comprometida, de forma que mesmo as conexões privadas que bancos e outras empresas utilizam costumam ser compartilhadas fisicamente com a infra da Internet. Um cabo de fibra subterrâneo, por exemplo, pode ter centenas de pares. E enquanto alguns são usados pra Internet outros são utilizados pela sua agência. E esses cabos foram comprometidos. Então sua agência não tem mais acesso ao sistema central do banco.

Isso provavelmente significa que todas as operações vão ter que ser feitas entre a agência e a central via telefone, fax ou relatórios impressos. Mas lembre-se que os servidores dos bancos estão em grandes data-centers enquanto os atendentes estão em call-centers, interligados pela finada infra-estrutura. Ou seja: Caos no setor bancário.

E como tudo é interligado de alguma forma os sistemas de pagamentos de empresas de água, luz, telefone, TV a cabo e celulares também iriam parar de receber confirmação de pagamentos dos bancos. Mesmo porque boa parte dessas confirmações chegam via internet. Resultado: Automaticamente seriam expedidas ordem para cortam os serviços para milhões de pessoas “inadimplentes”

E não é só isso. Grandes varejistas (ou nem tão grandes assim se estiverem utilizando um produto decente como o que a empresa onde trabalho desenvolve) não fazem mais pedidos a seus fornecedores via telefone ou fax. O seus sistemas de inventários podem automaticamente verificar o fluxo do estoque e mandar ordens de compra para os fornecedores utilizando EDI. E adivinhe qual o meio de comunicação? Internet!

Em apenas dois ou três dias seu supermercado local vai ficar sem mercadoria já que não conseguem mais colocar pedidos no fornecedor. E mesmo que conseguissem, iam pagar como com os bancos fora do ar?

E ao mesmo tempo imensos armazéns iriam ter produtos estragando, já que não seria possível checar nos sistemas qual cliente fez qual pedido, onde entregar mercadorias, etc.

Pra piorar apenas TV analógica aberta e rádios AM/FM estariam disponíveis como meios de comunicação em massa. Você ainda tem antena de TV por ai?

Mas isso não ia ajudar muito. A maior parte das ligações telefônicas passa por algum meio digital em algum momento (aquela estrutura que não existe mais, lembra?) incluindo os celulares. Transmissão de muitos programas entre afiliadas de TV também passam por satélites (indisponíveis). Acho que sobra rádio-amador como principal meio de comunicação inter-continental.

Então concluindo o pensamento em dois ou três dias sem Internet teríamos um completo caos no sistema financeiro, nos meios de comunicação, no varejo e na nossa geladeira.

As pessoas não teriam a quem recorrer nem ter o que fazer. Muito pior do que um apocalipse zumbi, já que pessoas normais revoltadas são bem mais rápidas e perigosas do que mortos-vivos.

Felizmente as chances disso acontecer são tão infinitesimais que pode-se dizer ser desprezível, mas posso garantir que jamais, como o vídeo mencionado anteriormente quer fazer parecer, o mundo seria um lugar melhor.

 

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