Morar nas maritimes tem suas vantagens e frutos-do-mar por preços acessíveis é uma delas. Taí uma receita que costumo fazer e está na minha lista pra essa semana.
Ingredientes:
- Meio quilo de camarão limpo e pré-cozido
- Meio copo de yogurte natural
- 1 copo de molho de tomate
- 1 cebola picada
- Azeite a gosto,
Modo de preparo:
Pré-aqueça uma frigideira no fogo médio, pique bem a cebola e reserve. Coloque o camarão num recipiente à parte e deixe o molho e o yogurte bem próximos um do outro. Espere entre 10 e 15 bilhões de anos (tempo aproximado), Coma enquanto ainda quente. Serve 4 pessoas.
Opa. Foi mal. O meu modo de preparo simplesmente cuspiu na cara de Isaac Newton ao desprezar sua primeira lei, né? Quer dizer… o camarão tende a ficar paradinho no seu recipiente exceto se uma força externa for aplicada a ele.
Isso sem contar com a sempre estraga-prazeres segunda lei da termodinâmica, que diz que a quantidade de entropia num sistema fechado (aka minha cozinha) tende a aumentar conforme passa o tempo. Ou seja: Obrigatoriamente meu camarão vai estragar, minha cebola vai azedar e a frigideira vai esfriar antes desse stroganoff ficar pronto.
Você que já me acompanha a mais tempo sabe onde vou chegar com essa conversa, mas continue lendo mesmo assim.
Um stroganoff é uma receita simples, que precisa de poucos ingredientes e pouco preparo mas não precisa ser cientista para ter o bom-senso de saber que meu modo de preparo é furado. Pense comigo: Tenho todos os ingredientes já na quantidade ideal, fisicamente próximos uns dos outros e num ambiente ideal (a cozinha). Mesmo assim essa receita jamais irá preparar-se a si mesma.
Se ajudasse eu poderia fornecer um macaco. A responsabilidade dele seria agir como um agente externo de possibilidades. Segundo o que é defendido por inúmeros cientistas, dado um número suficiente de possibilidades e universos (multiversos) em alguma realidade paralela em alguns bilhões de anos eventualmente o nosso macaco iria misturar os ingredientes na quantidade, ordem e recipientes corretos e acabar fazendo o stroganoff. Ridículo? Eu também acho.
Agora note, por favor, que minha receita está para o DNA assim como uma cabana feita com um cobertor e duas cadeiras está para o [Burj Khalifa](http://en.wikipedia.org/wiki/Burj_Khalifa). E mesmo assim cientistas como Richard Dawkins sustentam que é matematicamente possível que a receita da vida tenha surgido apenas pelo fato de ingredientes ideais estarem no mesmo lugar ao mesmo tempo numa incrível coincidência cósmica.
Sei lá, mas eu já li e pesquisei um bocado sobre como seria o ambiente no planeta quando tais circunstâncias ideais apareceram e vou dizer que minha cozinha limpinha e orgazinada é um ambiente muito mais propício para que ingredientes se auto-coordenem do que num lugar caótico, tempestuoso e vulcânico como teria sido o início do planeta. Só pensando…
Não só as chances da vida ter surgido de não-vida são ridiculamente pequenas (você pode acabar com todo o endereçamento IPv6 e exaurir um filesystem ZFS antes de começar a chegar perto do número de zeros necessários), mas ainda por cima isso teria que ter acontecido muitas e muitas vezes até que uma das novas moléculas “sobrevivesse” nesse ambiente inóspito o suficiente para criar outra e outra e outra de si mesma.
Agora, não me entendam errado. Eu sou um grande fã de ficção. E sou um grande fã de quadrinhos também e acho que ninguém trabalha melhor e especula melhor a possibilidade de multiversos e realidades paralelas do que os quadrinhos.
Nesse exato momento a DC está reformulando todos os seus personagens e até onde li basicamente o anti-flash está alterando a realidade do nosso universo conhecido e trazendo para cá o que seria uma realidade paralela em outro universo.
Outro exemplo muito bom foi a saga Marvel vs DC onde os “universos” percebem a existência um do outro e decidem que só um pode existir, causando um guerra entre os heróis das duas editoras. (E eu ainda acho que o Lobo deveria ter ganhado do Wolverine).
Eu posso ler e me envolver por horas a fio com histórias de universos paralelos, realidades alternativas, possibilidades infinitas, viagem no tempo e etc. Mas no final do dia eu sei que isso tudo é ficção e não realidade.
Quando olho um software eu não assumo que deixaram o servidor de GIT ligado por milhões de ano e o código apareceu. Eu imediatamente assumo que existe um programador.
Quando vejo uma escultura nem por um instante eu penso: “Que bela obra do acaso”. Eu posso não saber nada a respeito daquela escultura, mas uma coisa eu e qualquer outra pessoa do mundo tem certeza absoluta: Existe um escultor.
E da mesma forma que uma pintura exige um pintor, uma mesa pre-supõe um carpinteiro e um sistema operacional foi codificado por um hacker toda e qualquer criação precisa de um criador.
Apenas o senso comum é suficiente para nos dizer que se uma coisa ridiculamente simples como um stroganoff de camarão não pode surgir sem um cozinheiro quiçá então mais a vida, o universo e tudo mais que existe.
Não, 42 não é a resposta. Isso, de novo, é só ficção.