Por algum motivo que não entendo, a seguinte frase é controversa: “Fatos não se importam com seus sentimentos”. É uma frase quase estóica. Um fato é um fato. Ele existe isoladamente, independentemente do que você pensa a respeito dele.
Sua opinião sobre o fato pode ser favorável ou desfavorável, mas isso não muda o fato em si.

Fatos baseados em números e estatísticas são especialmente insensíveis aos sentimentos. A matemática não mente, não chora e não faz concessões: ela é uma verdade absoluta, que existiria mesmo se a humanidade nunca tivesse surgido. Se nenhum ser humano existisse, 1 + 1 ainda seria 2. Nós apenas descobrimos os números. Eles não precisam da nossa aprovação para serem verdade.

Então, quando um fato tem suporte em números, não importa o quanto você esperneie, chore, xingue ou diga que não pode ser verdade, sinto informar-lhe, mas o fato não se importa. E você está apenas bancando o idiota.

Apesar de morar no Canadá, passei 6 dos últimos 12 meses na América do Sul. Cinco deles no Sul do Brasil.

Devido às voltas que a vida dá, acabei me encontrando em Curitiba por cinco meses a trabalho e aproveitei a oportunidade para viajar pelo Sul do Brasil. Eu realmente fiquei boquiaberto.

O Paraná, mas principalmente a Santa Catarina, me encantaram. Eu não estava preparado para o que encontrei lá, de forma muito positiva. Cidades lindas, limpas e razoavelmente seguras. Ainda é Brasil, então não vamos dourar demais a pílula, mas me senti mais seguro em Joinville do que em Madrid ou em Roma, por exemplo.

Em Curitiba, ficamos morando bem no centro da cidade — região que, em qualquer metrópole grande, costuma ser a pior possível para se viver. Apesar disso, a experiência foi perfeitamente aceitável. Havia moradores de rua e mais pichação do que seria visualmente agradável, é verdade, mas o lugar ainda funcionava como um centro urbano normal e habitável. Em comparação, o centro de São Paulo é indistinguível de uma zona de guerra ou de um sanatório ao ar livre.

Por outro lado, já que estávamos no Brasil, pensamos que passar uns dias na Bahia e aproveitar um resort seria uma boa ideia. Descer no aeroporto de Salvador e pegar a estrada de lá já foi um choque e me lembrou da frase do Mágico de Oz: “Nós não estamos mais no Kansas”. Cidade horrível, pobre, pichada e vandalizada. Aquela sensação de abandono e pobreza, de falta de esperança no futuro. Depois de muita estrada, o motorista entrou num bairro cercado, que ficou mais decente. Uma óbvia separação entre os pobres e os ricos. Mas não bastou um bairro cercado. Passamos por mais 3 guaritas e pontos de checagem de segurança, com acesso cada vez mais restrito, até que finalmente entramos no perímetro do resort, que era luxuoso e considerado seguro.

Vamos contrastar isso com outro resort que visitamos em Santa Catarina. Fomos de carro para esse e a estrada era sinuosa, mas bem pavimentada e sinalizada. Fizemos uma parada para comer pastel assim que chegamos ao estado, deixando o carro cheio de todas as nossas malas, sem a menor preocupação.

A cidade onde o resort se encontrava era pequena, mas muito bonita, lotada para o seu tamanho e muito bem cuidada. Restaurantes por todos os lados, muita gente na rua, ônibus com turistas cantando e polícia circulando. Sem sinais de pichação, sem moradores de rua e tudo agradável aos olhos. A transição da estrada para a cidade, para a região com hotéis e resorts e, finalmente, para as praias acontece de forma natural e transparente. Não há restrições de acesso, guardas, proteção ou separação social.

Para um brasileiro que vive fora do Brasil há quase 20 anos, a experiência foi chocante. São praticamente dois “Brasis”, tamanha a diferença de realidade.

Ora, mas o que pode ser a causa dessa diferença tão grande entre essas duas regiões?

Para começar, vamos olhar para o que gera riqueza. A divergência econômica entre as duas regiões não é um acidente, mas um processo de separação que se consolidou desde o início do século XX. Hoje, os números são implacáveis: em 2023, enquanto o PIB per capita da Região Sul atingiu R$ 61.275, o do Nordeste ficou em R$ 27.682: menos da metade do valor sulista. Essa disparidade se reflete na capacidade de abrir negócios; no primeiro quadrimestre de 2024, a abertura de novas empresas no Sul cresceu 28,9%, enquanto o Nordeste apresentou o menor crescimento do país, com 19,4%. Não é apenas “sentimento” de pobreza; é uma estrutura produtiva que, no Sul, caminha para a autonomia e, no Nordeste, permanece travada por um ambiente de baixa liberdade econômica, em que estados como Pernambuco e Bahia ocupam sistematicamente as últimas posições nos rankings de empreendedorismo.

Essa diferença econômica decorre, em grande parte, da qualidade do capital humano. O Censo de 2022 mostra que a taxa de analfabetismo no Nordeste é de 14,2%, exatamente o dobro da média nacional. No Sul, essa realidade é outra: Santa Catarina registra uma taxa de alfabetização de 97,3%, a maior do país. O dado mais cruel, porém, está no hiato geracional: enquanto no Sul o analfabetismo acima de 2% só aparece em faixas etárias mais elevadas, no Norte e no Nordeste ele já se manifesta entre jovens de 15 a 19 anos. Sem educação básica, não há produtividade, e sem produtividade, a população fica refém de ocupações informais e de baixa remuneração, perpetuando o ciclo que vi de perto em Salvador.

A segurança pública também tem sua explicação matemática na “nordestização” da violência. Na década de 80, a Bahia era um estado seguro, com apenas 6,0 homicídios por 100 mil habitantes. Hoje, o cenário inverteu: em 2023, o Nordeste registrou a maior taxa de homicídios do país (36,5 por 100 mil), enquanto o Sul manteve 16,4, menos da metade da nordestina. Em estados como Santa Catarina, esse número cai para 8,9, patamares que explicam por que é possível parar para comer um pastel na beira da estrada, com o carro cheio de malas, sem o pânico que se sente ao desembarcar em capitais do Norte ou Nordeste.

O ponto mais sensível, contudo, é a dependência estatal e a mobilidade social. Um estudo do IMDS que acompanhou dependentes do Bolsa Família de 2005 a 2019 revelou que 74% dos jovens beneficiários no Sul conseguiram sair do Cadastro Único e conquistar autonomia. No Nordeste, esse índice de emancipação cai para 58%, e a taxa de pessoas que permanecem dependentes do auxílio governamental após 14 anos é de 27%. Quase o triplo da observada no Sul. O sistema assistencialista, que deveria ser uma ponte, tornou-se, para muitos, uma moradia permanente, alimentada por um mercado de trabalho local que não oferece oportunidades reais de ascensão.

Por fim, essa disparidade socioeconômica transborda para a urna, criando dois mapas políticos distintos. Nas eleições de 2022, o Nordeste consolidou-se como o baluarte da esquerda, dando a Lula 69,34% dos votos válidos e a vitória em 98,9% dos municípios. Já o Sul inclinou-se à direita, com Jair Bolsonaro alcançando 61,84% dos votos na região. Essa polarização não é apenas ideológica; é o reflexo de visões de mundo moldadas pela realidade material. De um lado, uma região que prioriza a liberdade econômica e a segurança como motores de sucesso; do outro, uma população que, mantida em baixo desenvolvimento e alta dependência, busca no Estado a única garantia de sobrevivência.

Os fatos estão aí, em preto e branco, para quem tiver a coragem de lê-los.

Esses números não são acidente nem “herança colonial”: são o resultado previsível de décadas de domínio esquerdista no Nordeste, onde governos alinhados ao PT e aliados transformaram o assistencialismo em política de Estado. Desde 2007, a Bahia vive sob administração petista ininterrupta (quase 20 anos) e continua recebendo mais recursos federais do que arrecada, enquanto gera menos da metade do PIB per capita do Sul.

O mesmo padrão se repete em Pernambuco, Ceará, Maranhão: transferências bilionárias que deveriam ser ponte viraram rede de dependência permanente, com 27% dos beneficiários do Bolsa Família ainda presos ao Cadastro Único após 14 anos, contra apenas 9% no Sul.

Onde a esquerda toca, a iniciativa privada murcha, a educação definha, a segurança colapsa e o empreendedorismo é sufocado pela burocracia e pelo clientelismo. O Sul, com maior liberdade econômica e menor intervenção estatal, prova que outro caminho é possível e os dados gritam isso em alto e bom som.

Fatos não se importam com seus sentimentos. Podem doer, podem incomodar, podem ferir narrativas confortáveis de “vítima do sistema”, mas eles permanecem implacáveis: o Nordeste, sob hegemonia esquerdista, afunda e apodrece como tudo o que a esquerda toca, enquanto o Sul, ao resistir a esse modelo, constrói cidades limpas, seguras e prósperas.

Ignorar essa evidência matemática não muda a realidade — apenas perpetua o atraso e ameaça arrastar o Brasil inteiro para o mesmo buraco. A escolha é simples: ou abraçamos os fatos e mudamos de rumo, ou continuamos fingindo que a ideologia vence a aritmética. A matemática, como sempre, não perdoa.

Fontes