As mentiras que a Internet conta

By | March 9, 2019

Quando eu era criança por muito tempo não tínhamos TV em casa. Eu já era razoavelmente grandinho quando finalmente meu pai liberou a TV, mas diariamente ele me dizia e fazia repetir algo do tipo: “Na TV quase tudo é mentira e o resto é bobagem”.

Sábias palavras, mas muitos anos depois eu diria que a TV era quase uma santa comparada à Internet hoje em dia.

Lá pelo meio dos anos 90, quando comecei a ter acesso à Internet, eu achei o máximo. Aprendi tanta coisa em tão pouco tempo – mesmo antes do Google e Wikipedia – que pensei que acesso à informação seria uma grande revolução. Conforme mais pessoas conseguissem ter acesso mais elas poderiam se informar, aprender, crescer pessoalmente e fazer um mundo melhor.

Ao invés disso – quase 30 anos depois – o que temos é:

  • Gente que acredita em terra plana
  • Pessoas que acreditam que vacina causa autismo
  • Golpes e mais golpes roubando as pessoas
  • Câmaras de eco
  • Teorias da conspiração
  • Manipulação da opinião pública usando media social
  • Solo fértil para os piores tipos de depravação

Mas assim como uma arma não mata ninguém sem um humano sendo o culpado por trás, a Internet em si não é o problema. A Internet apenas potencializou duas coisas bem humanas: Nossa perversidade e nossa estupidez.

Nossa perversidade: Trolls

A Wikipedia não tem um artigo em Português para Troll, mas uma tradução bem liberal do início do artigo em Inglês seria algo como:

“Troll é uma pessoa que inicia brigas ou provoca pessoas na Internet para distrair e semear a discórdia, postando mensagens inflamatórias e digressivas, estranhas ou fora do assunto.”

No início da Internet Trolls eram basicamente pessoas imbecis e maldosas querendo criar problema e provocar discórdias. Mas nos últimos anos se tornou uma arma social utilizada por agências governamentais, candidatos políticos, grandes empresas e todo tipo de pessoa ou instituição com interesses próprios.

A forma favoritas dos Trolls agirem é semeando discórdia. Uma das abordagens mais comuns é criarem uma enorme quantidade de perfis falsos – includindo Twitter, Facebook, Youtube, etc – em dois lados de uma discussão. Vamos por exemplo, dizer que criam perfis Palmeirenses e Corintianos.

O próximo passo é inventar mentiras que são apenas falsas o suficiente para serem críveis e encontrar pessoas daquele lado – digamos Palmeiras – para acreditar sem verificar.

Como são centenas ou milhares de contas falsas, os palmeirenses começam a ser bombardeados com mentiras à respeito dos Corintianos. E como já disse o outro, uma mentira repetida o número suficiente de vezes se torna verdade.

Esse palmeirense que não verificou a veracidade então procede e re-publica a notícia falsa. Agora você, palmeirense que conhece pessoalmente esse cidadão e o considera um amigo ponta-firme e alguém dentro da sua esfera de influência, aceita a notícia sem questionar! Afinal, o fulano não iria passar pra frente uma notícia falsa. E você passa para frente.

Acontece que sua reputação entre seu grupo de amigos é ainda melhor que o fulano. E alguém que pode ter ouvido a notícia de alguém que uma reputação menor e ter ficado em dúvida, assim que ouve de você assume que é verdade.

Os ânimos se inflam, pois as notícias falsas são sempre feitas para mexer com as emoções, e a raiva e ódio pelos Corintianos aumentam.

E ao mesmo tempo os Trolls estão trabalhando no lado oposto e fazendo a mesma coisa!

Para piorar a situação, muitas agências de notícias, jornais, revistas e outras empresas da mídia tradicional, ao verem a Internet explodindo com uma notícia correm para noticia-la também! Afinal não querem ficar para trás.

Está explodindo no Facebook AGORA. Quem tem tempo para jornalismo investigativo? Checar as fontes de informação e separar o joio do trigo? Se não publicar a notícias nos próximos 15 minutos perdeu-se o bonde! Lá se foi o dinheiro de anúncios.

E vamos ser claros aqui: Quando estamos falando de algum assunto mais sério do que futebol, é bem provável que um jornal ou revista prefira um dos lados de um argumento. E aí só se agitam ainda mais os ânimos.

Nossa estupidez: Viés e preconceito

A Wikipedia em Português tem uma pequena lista de vieses cognitivos (comparada com enorme lista em Inglês), mas é o suficiente para apoiar o argumento. A definição de vieses cognitivos é:

Vieses cognitivos são as tendências de pensar de certas maneiras que podem levar a desvios sistemáticos de lógica e a decisões irracionais”

O mais comum, na minha opinião, é o viés de confirmação:

“… é a tendência de se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais.
… As pessoas demonstram esse viés quando reúnem ou se lembram de informações de forma seletiva, ou quando as interpretam de forma tendenciosa. “

Eu li um tempo atrás um livro chamado “How to Win Every Argument: The Use and Abuse of Logic” que basicamente ensina como ganhar discussões utilizando esses vieses cognitivos.

Um exemplo clássico: Atacar o indivíduo ao invés do argumento.

Quantas vezes você já ouviu algo do tipo: “Mas esse cara é um baita de um (bandido|petista|corrupto)! Não pode acreditar num cara desse não!!”

Acontece que o cara acabou de falar que a terra é redonda, ou que vacina não causa autismo, ou que o céu é azul! O fato de ser bandido não tem nada haver com o assunto sendo discutido.

Então basicamente o que acontece é que temos a tendência de acreditar sem quase nenhum filtro em coisas que concordem com a nossa opinião e ao mesmo tempo somos radicalmente contra qualquer pessoa ou opinião que seja diferente da nossa.

E ainda tem o preconceito, que de acordo com a Wikipedia:

“Preconceito é uma opinião desfavorável que não é baseada em dados objetivos, mas que é baseada unicamente em um sentimento hostil motivado por hábitos de julgamento ou generalizações apressadas.”

Veja que é um conceito bem amplo, não apenas relacionados a diferenças raciais ou religiosas. Você pode ter preconceito de idéias, valores, lugares, roupas e outros basicamente por causa de uma generalização apressada e muitas vezes inconsciente.

Eu, por exemplo, achava que touca é coisa de maloqueiro. Quem, no Brasil, usa touca exceto maloqueiro de torcida organizada, trombadinha e assaltante? Principalmente no verão.

Bom, no Canadá se não usar uma touca é bem provável que suas orelhas congelem no inverno. Maloqueiro ou não.

Se eu não tivesse revisto meus preconceitos e valores, seria fácil assumir o seguinte: Só maloqueiro usa touca. No Canadá todo mundo usa touca. Logo, o Canadá é um país de maloqueiros. Melhor manter distância.

Conclusão

Acho que onde quero chegar no final das contas é que:

  • Nós acreditamos no que queremos acreditar
  • Nós somos seres sentimentais e os Trolls e a mídia são especialistas em manipular emoções
  • Câmaras de eco são extremamente perigosas
  • Por padrão somos preconceituosos e não queremos deixar de ser

Se tivermos pelo menos consciência dos pontos acima, quem sabe não seremos uma vítima tão fácil da imensa fonte de mentiras e manipulação que a Internet se tornou.

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2 thoughts on “As mentiras que a Internet conta

  1. Mari

    Gostei muito da sua reflexão, vou ler com meus alunos, estávamos debatendo exatamente isso nas aula de ciências quando eu diferenciava opinião de fato científico! Thank you! ^.^

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