Gambá

By | October 3, 2020

Aqui em casa temos um quintal na parte de trás. Ele é cercado, mas a cerca de madeira em alguns lugares tem brechas e um espaço mais ou menos grande por onde bichos podem passar. O portão que dá pra frente da casa também é vazado e fácil passaria até um gato grande.

Junta isso com o fato de ter um gramadão e um jardim com diversos tipos de plantas e acabamos atraindo insetos, pássaros e coelhos. Tem muito coelho selvagem aqui e durante a noite eles estão pra todos os lados, incluindo nosso quintal. Quase diariamente quando acordamos de manhã – ainda escuro – tem um ou mais coelhos lá fora. O Logan fica louco querendo pegar, mas os coelhos são muito rápidos e ele nunca consegue.

O meu procedimento de manhã então é esse: Desço, abro a porta da sala que dá pro quintal, o Logan sai correndo igual um maníaco na esperança de ter coelho e de ele conseguir pegar. Eu deixo a porta aberta e vou ligar a cafeteira. (Vale dizer aqui que o Logan não late correndo atrás dos coelhos. Normalmente é antes das 5 da manhã e não seria aceitável.)

Tudo isso pra dizer que uns meses atrás começamos a manhã como sempre, mas depois de menos de um minuto de ter aberto a porta eu ouço o Logan rosnando. E em seguida um ganido e tosse. Corro pra porta e vejo ele correndo em círculos, se jogando no gramado e arrastando a cara no chão. Eu não tinha ideia que raios tava se passando. E aí chegou o cheiro em mim…

A conclusão é que o Logan saiu procurando coelho no gramado, mas percebeu que atrás do shed (como fala isso em pt_BR?) tinha alguma coisa e foi lá fuçar. E deu de cara com um gambá.

Não foi fácil tirar o cheiro do Logan ou da casa. O lugar no quintal onde o encontro aconteceu ficou fedendo umas 2 semanas.

Skunk - Wikipedia
Via Wikipedia

Se você nunca viu um gambá pessoalmente, o bicho não é muito grande. Mais ou menos do tamanho de um gato doméstico. Arrisco a dizer que é menor que um guaxinim, outro animal que tem em abundância aqui.

Depois do incidente já cruzamos com gambás mais algumas vezes quando saímos pra fazer nosso canicross. Você imaginaria que qualquer animal com bom senso ao ver e ouvir uma pessoa grande acompanhada de um cachorro correndo na direção dele iria fugir o mais rápido possível. E você provavelmente estaria certo.

Os coelhos fogem no menor sinal de movimento. Guaxinins, veados, coiotes e até ursos negros – todos animais típicos do Canadá – fogem quando vêem seres humanos. Gambás? Eles param e te olham com um ar de violência. Como quem diz: Vem cá. Chega perto. Vem completar meu dia.

Essa semana estávamos correndo quando vejo um vulto na calçada uns 50 metros pra frente. O Logan também percebeu e acelerou o passo. Mas uns segundos depois ao invés de correr o animal parou e virou na nossa direção. Um gambá.

Se você já foi atacado por algum animal talvez saiba aquela sensação de pânico e medo que dá no estômago. Você quer fugir desesperadamente e tem medo do que pode te acontecer.

Não é o caso do gambá. Eu não tenho medo de gambá. Eu não respeito o gambá. Eu sei que é um animal pequeno e praticamente inofensivo. Um gambá não vai me machucar. Mas mesmo assim eu atravessei a rua.

Eu fiquei pensando depois quantas vezes na vida a gente tem que interagir com pessoas que são verdadeiros gambás.

Essas pessoas não merecem nenhum respeito já que não tem mérito por nada que conquistaram. Talvez estejam numa posição de chefe, mas não são líderes. Podem ser ricas, mas por terem herdado uma fortuna. Ou terem adquirido bens de forma ilegal. Ou profissionais tecnicamente muito bem capacitados, mas pessoas intragáveis. São tantos cenários…

Elas acabam sendo respeitadas por sua posição hierárquica, social ou financeira. Todos nós atravessamos a rua – metaforicamente falando – para essas pessoas. Mas apenas porque não queremos lidar com o fedor delas.

Não existe um real respeito. Apenas interagimos como é esperado por elas pra não precisar lidar com o cheiro que vão deixar na gente. E provavelmente é uma sábia decisão da nossa parte. Só fiquei ponderando.

Também tem um outro lado: Eu tenho medo de eu mesmo ser um gambá e não saber… E se a minha autoconsciência estiver errada sobre o tipo de pessoa que eu sou? Complicado saber… Acho que estou precisando ler esse livro.

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